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Santiago, 20 de marzo de 2001

A crise da Argentina: A receita amarga do neoliberalismo
 

Dejalma Cremonese-

La insignia



Depois de três pacotes econômicos em menos de um ano, numa tentativa de "arrumar" a casa, o governo argentino acertou com o FMI (Fundo Monetário Internacional), um dos maiores pacotes de empréstimos de emergência da história da Argentina. Trata-se de uma carta de crédito de US$ 39,7 bilhões, dinheiro este, que servirá para o governo argentino saldar suas contas externas até o final de 2002. É importante lembrar que o "acordo" foi concretizado em decorrência do FMI e de outras instituições internacionais (credores) exigirem, e verem garantidas, as chamadas reformas "caseiras" as quais o governo argentino comprometeu-se em efetivar. Tais reformas incluem, além da abertura comercial, dos cortes nas verbas das universidades públicas e diminuição nos gastos públicos, a privatização do setor previdenciário, o congelamento por cinco anos dos gastos das Províncias (equivalentes aos estados brasileiros) e corte de salários do funcionalismo.

Para entender um pouco mais a crise Argentina temos que voltar até 1991, quando o então ministro da economia do governo Carlos Menen, Domingo Cavallo, adotou o câmbio fixo no país, com o peso no valor de US$ 1. O objetivo inicial, que era reduzir a hiperinflação de 200% ao mês, foi atingido, mas as pessoas e empresários se endividaram em dólar. A partir de 1995, o crescimento da economia argentina e o fluxo de investimentos para o país começou a cair. As crises do México (1994/1995) e Asiática (1997), também a desvalorização do real (1999), levaram o país à recessão.

O endividamento externo, o desemprego e o subemprego de 28% da população paralisaram a Argentina, devido à paridade da moeda com o dólar, que impediu o país de crescer. No pacote de maio deste ano, o presidente Fernando de La Rúa tentou diminuir o déficit fiscal e fazer a economia crescer; porém sem obter o sucesso esperado. Nesta última medida econômica, além dos cortes nos impostos para atrair investimentos, o governo propôs aos países do Mercosul a redução da Tarifa Externa Comum (TEC), que incide sobre os bens importados pelos países do bloco.

Os esforços do presidente Fernando de La Rúa, desde que assumiu o governo, têm se concentrado em cortar os déficits do governo para reduzir as taxas de juros. Mas com o trigo e a soja batendo recordes de preço baixo e com o peso argentino vinculado ao dólar forte numa razão de 1 para 1, as exportações e a economia do país estagnaram. Aumentos na receita tributária e um declínio nos gastos públicos este ano agradaram o Fundo Monetário Internacional, mas o desemprego subiu para 15,4%, o maior nível em três anos. Há apenas cinco meses, as autoridades governamentais diziam que a economia cresceria no mínimo 4% este ano - depois de um declínio de 3% em 1999 - mas, agora, a maioria dos economistas diz que o país terá sorte se atingir uma taxa de crescimento de 2% (Cf.: The New York Times, 17-08-2000).

Para tentar melhorar sua imagem frente aos outros países o governo argentino aumentou os impostos, agradando principalmente ao FMI, fazendo com que mais uma vez a população acabe pagando pelo erros praticados pelos governantes. Os mesmos governantes que preferem ter uma boa imagem frente aos órgãos internacionais do que ajudar a população, lhes possibilitando o acesso ao emprego, escola, habitação, lazer, enfim, uma vida digna dentro dos padrões de um Estado soberano. A fragilidade do Estado argentino é surpreendente, o desemprego atingiu seus índices mais altos em três anos, as taxas de criminalidade a cada dia crescem mais e escândalos abalam o Senado deixando o país à mercê de um grande caos social.

Em decorrência disso, uma onda de descontentamento e pessimismo está assolando a Argentina, erodindo o capital político do governo e levando-o a adotar medidas desesperadas para criar empregos e fazer ascender novamente a economia do país. Com os cofres públicos "falidos", instrumentos políticos limitados, a Argentina enfrenta um grande enfraquecimento da sua economia, com várias empresas públicas sendo privatizadas, diminuindo ainda mais o patrimônio do Estado argentino. A população argentina está exausta com esta situação. Vários são os moradores que vão às rádios relatar que não agüentam mais a miséria a que estão submetidos: "Não há nada de bom na Argentina hoje. Há 50 anos, vivíamos com dignidade. Agora, apenas ladrões é que ganham e as pessoas honestas não ganham nada" - declarou um morador argentino, antes de começar a chorar "eu gostaria de poder morrer" (Cf.: Reuters, 22-10-2000).

É consenso que, durante a última década, a Argentina, assim como outros países Latino-americanos, têm levado à "sério" as "receitas" neoliberais, porém as conseqüências de tais políticas podem ser resumidas em poucas palavras: concentração de renda, perda da soberania estatal e miséria para a maioria da população. O que vemos no Brasil é uma situação idêntica ou uma mera coincidência com a realidade argentina? Ou não seria melhor a pergunta: "eu não sou você amanhã"?


Dejalma Cremonese e professor de Ciência Política da UNIJUÍ - RS (Brasil)

[Texto tirado do diario de información alternativa La insignia, 20 de decembro de 2000]

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