Actualidade / ArtigoVolver


Santiago, 20 de abril de 2001

1º de maio: um dia com história, um dia de luta
 

Absolon de Oliveira (Linha Aberta)-

La insignia


"Em inúmeras batalhas a força permite obter a vitória, mas uma guerra só é vencida graças à razão. O poderoso nunca poderá obter razão da sua força, ao passo que nós sempre poderemos obter força de nossa razão." - Antoine-


Cento e quinze anos se passaram desde que entidades sindicais americanas decretaram, em 1º de maio de 1886, uma greve nacional pela jornada de 8 horas de trabalho. A bandeira: "8 horas de trabalho, 8 horas de sono, 8 horas de lazer". A situação era extremamente difícil para os trabalhadores - não só americanos - mas para todos aqueles que viviam em países que começavam a se industrializar.

Os Estados Unidos surgiram como nação independente em 1776, após romperem os laços com a Inglaterra. As condições de trabalho eram, no geral, idênticas as da Europa. Em 1847, carpinteiros, pedreiros, marceneiros e vidraceiros da Filadélfia realizaram a primeira greve e criaram a União das Associações de Trabalhadores da Filadélfia. Em 1842 foi votada a lei de dez horas diárias de trabalho para todos, em Massachusetts e Connecticut; três anos depois ocorreu o primeiro Congresso operário americano.

Em agosto de 1866, o congresso operário de Baltimore adotou a resolução de lutar pela promulgação de uma lei de 8 horas de jornada de trabalho em todos os Estados. Nesses mesmos dias, a Internacional, em seu Congresso em Genebra, assumira posição semelhante. Em 25 de junho de 1868, o Senado americano aprovou a lei Ingersoll, determinando oito horas de trabalho para todos os empregados da União, o que não teve efeito na prática.

Em 1881 nasceu a Federação Americana do Trabalho (AFL) que, em 1884,promoveu um congresso em Chicago, no qual seu secretário Frank K. Foster manifestou seu descrédito de que o Parlamento promulgasse a lei de 8 horas, e propôs uma greve geral para 1º de maio de 1886 pela jornada de 8 horas para todos. Essa proposta foi prontamente aprovada pela assembléia e eles tiveram um ano e meio para preparação da greve.

Em 1º de maio de 1886, ao amanhecer, as organizações sindicais já haviam lançado a palavra de ordem unitária: "A partir de hoje nenhum operário deve trabalhar mais de 8 horas por dia". 8 horas de trabalho! 8 horas de repouso! 8 horas de lazer!

Realizaram-se manifestações nos principais centros, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado era também o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.

O dia 1º de maio de 1886 foi um dia diferente em Chicago, a cidade estava em grande silêncio, com fábricas, transportes e comércio paralisados. Os jornais patronais chamavam os líderes operários de cafajestes, canalhas que buscavam criar desordens. O silêncio só foi rompido quando a passeata surgiu pela avenida Michigan, com milhares de trabalhadores, que com suas famílias caminhavam para a praça Haymarket. No alto dos edifícios e nas esquinas estava posicionada a repressão policial. A manifestação terminou com um ardente comício.

No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra um grupo de operários, matando seis, deixando 50 feridos e centenas presos, Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma.

Os oradores, Spies, Parsons e Sam Fieldem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os e pisoteando-os. Uma bomba estourou no meio dos guardas, uns 60 foram feridos e vários morreram. Reforços chegaram e começaram a atirar em todas as direções. Centenas de pessoas de todas as idades morreram.

A partir daí, repressão foi ainda maior, sendo decretado estado de sítio e proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, facínoras pagos pelos patrões invadiram casas espancando os operários e destruindo seus pertences.

A justiça burguesa levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou dia 21 de junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida dia 9 de outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte; Fielden e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.

Spies fez a sua última defesa:

"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção- se esta é sua opinião (sic), enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faisca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não podem apagá-lo".

Parsons também fez um discurso:

"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão". Fez um relato da ação dos trabalhadores, desmascarando a farsa dos patrões com minúcias e falou de seus ideais:

"A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objetivo do socialismo".

No dia 11 de novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniqüidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.

Em 1888 quando a AFL realizou o seu congresso, surgiu a proposta para realizar nova greve geral em 1º de maio de 1890, a fim de se estender a jornada de 8 horas às zonas que ainda não haviam conquistado.

No centenário do início da Revolução Francesa, em 14 de julho de 1889, reuniu-se em Paris um congresso operário de tendência marxista. Os delegados representavam três milhões de trabalhadores. Esse congresso passou para a história como o da fundação da Segunda Internacional.

Na hora da votar as resoluções, o belga Raymond Lavigne encaminhou uma proposta de organizar uma grande manifestação internacional, ao mesmo tempo, com data fixa, em todas os países e cidades pela redução da jornada de trabalho para 8 horas e aplicação de outras resoluções do Congresso Internacional. Como nos Estados Unidos já havia sido marcada para o dia 1º de maio de 1890 uma manifestação similar, manteve-se o dia para todos os países.

No segundo Congresso da Segunda Internacional em Bruxelas, de 16 a 23 de setembro de 1891, foi feito um balanço do movimento de 1890 e no final desse encontro foi aprovada a resolução histórica: tornar o 1º de maio como "um dia festa dos trabalhadores de todos os países, durante o qual os trabalhadores devem manifestar os objetivos comuns de suas reivindicações, bem como sua solidariedade".

Como vemos, a greve de 1º de maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos, não foi um fato histórico isolado na luta dos trabalhadores, ela representou o desenrolar de um longo processo de luta em várias partes do mundo que, já no século XIX, acumulavam várias experiências no campo do enfrentamento capital x trabalho.

O incipiente movimento operário que nascera com a revolução industrial, começava a atentar para a importância da internacionalização da luta dos trabalhadores. O próprio massacre ao movimento grevista de Chicago não foi o primeiro, mas passou a simbolizar a luta pela igualdade, pelo fim da exploração e das injustiças.

Muitos foram os que tombaram na luta por mundo melhor, do massacre de Chicago aos dias de hoje, um longo caminho de lutas históricas foi percorrido. Os tempos atuais são difíceis para os trabalhadores, a nova revolução tecnológica criou uma instabilidade maior, jornadas mais longas com salários mais baixos, cresceu o número de seres humanos capazes de trabalhar, porém para a nova ordem eles são descartáveis. Essa é a modernidade neoliberal, a realidade do século que iniciamos, a distância parece pequena em comparação com a infância do capitalismo, parecemos muito mais próximos dela do que da pseudo racionalidade utópica neoliberal, que muitos ideólogos querem fazer crer.

A realidade nos mostra a face cruel do capital, a produção capitalista continua a fazer apelo ao trabalho infantil, somente na Ásia, seriam 146 milhões nas fábricas, e segundo as Nações Unidas a cada ano, um milhão de crianças são lançadas no comércio sexual.

A situação da classe trabalhadora não é fácil, nesse período houve avanços, mas a nova revolução tecnológica do final do século XX trouxe à tona novamente questões que pareciam adormecidas. Tal qual no final do século XIX, a redução da jornada de trabalho é a principal bandeira do movimento sindical brasileiro. Neste sentido nos parece óbvio que a reflexão das lutas históricas passadas torna-se essencialmente importante, como aprendizagem para as lutas atuais.


Absolon de Oliveira, texto baseado no livro "1º de maio; cem anos de luta 1886-1986", José Luis Del Roio. São Paulo, Global Editora, 1986.


[Artigo tirado do diario de información alternativa La insignia, 18 de abril de 2001]

Volver


Volver ao princípio


Ir á páxina de inicio
Confederación Intersindical Galega
www.galizacig.com

ÚLTIMA REVISIÓN: 20/04/2001