Actualidade / Artigo O governo Lula e o conservadorismo da sociedade política Lucio F. Oliver Costilla- O governo, por sua parte, argumenta que o PT não tem maioria nas câmaras e sustenta que, pelo tipo de alianças políticas e das negociações com os parlamentares e governadores de outros partidos, é inevitável o caráter fiscalizador das políticas. O que é verdade nesta situação é o aspecto extremamente conservador da atual sociedade política brasileira. E se o governo quer desenvolver políticas e aprovar reformas exclusivamente com aliados da sociedade política é inevitável reduzir o alcance das propostas de mudança. O problema é que, com tal concepção, a equipe de Lula está aceitando o postulado fundamental da noção de democracia delegativa, tradicional na América Latina. Nessa concepção, a sociedade civil é considerada capaz de criar organizações fortes, desenvolver movimentos sociais e políticos, eleger partidos e personalidades triunfantes para, no final, entregar à sociedade política toda a força acumulada, dando lugar a um protagonismo exclusivo dos atores políticos. Ao delegar seu poder, a sociedade civil mobilizada, organizada e atuante deixa de existir, se dilui e dispersa para dar lugar ao protagonismo exclusivo da sociedade política. Nessa situação não se gera representação e sim delegação do poder dos cidadãos. Parece que algo assim poderia via a acontecer no Brasil. O presidente Lula tem visto reduzida sua capacidade de fazer mudanças por querer fazê-las apoiando-se só numa sociedade política conservadora em lugar de fazer uma aliança com a sociedade civil, de convocá-la a participar ativamente. E a sociedade civil, por sua parte, vem se tornando passiva; tem-se diluído em um momento político em que teria que ser protagonista das políticas de mudança, junto ao governo e aos partidos de trabalhadores. Os espaços públicos continuam limitados e estatizados, quando poderiam ser novos espaços de participação e de parceria da sociedade civil com os setores transformadores da sociedade política. A concepção de Estado que está por detrás do conceito de democracia delegativa reduz a sociedade civil a um instrumento eleitoral, em lugar de entender o poder político como Estado ampliado que inclui a luta pela hegemonia na sociedade civil.
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ÚLTIMA REVISIÓN: 23/09/2003 |