Actualidade / Artigo A Europa e o mundo Boaventura Santos-
Perdido o ímpeto da reforma da ONU, a partir da ONU, a Tavola della Pace tomou a seu cargo alimentar essa aspiração, realizando desde então a Assembléia das Nações Unidas dos Povos. Para além de uma vastíssima presença de organizações italianas, a Assembléia inclui representantes de movimentos pela paz e pela democracia dos quatro cantos do mundo e outros convidados internacionais. Este ano estavam presentes 210 convidados de 90 países. Tive o gosto de partilhar com o dr. Mário Soares a presença portuguesa. Cada ano a Assembléia tem um tema central. O deste ano foi o papel e a responsabilidade da Europa no mundo. O tema não podia ser mais oportuno. Depois do desnorte da Europa no que respeita à invasão do Iraque, depois dos milhões de europeus que em 15 de fevereiro vieram para a rua manifestar-se pela paz em comunhão com muitos outros milhões em todo o mundo, depois da vergonhosa posição adoptada pela Europa na recente reunião da Organização Mundial do Comércio em Cancun, depois de os neoconservadores norte-americanos revelarem os seus planos para dividir a Europa e fazer dos países em vias de entrar na UE um autêntico território de caça, depois de tudo isto era urgente que os cidadãos refletissem sobre a questão crucial das responsabilidades globais da Europa. As conclusões foram perturbadoras. No preciso momento em que a fúria unilateralista e a agressividade ensandecida dos EUA abrem o espaço geopolítico para uma alternativa, a Europa, que estaria em condições em ser parte importante dessa alternativa, está num impasse, desprovida de política externa, paralisada por um processo constitucional antidemocrático, presa fácil dos interesses econômicos norte-americanos com um acesso privilegiado aos comissários relevantes. O que se passou em Cancun foi uma vergonha para a Europa oficial e uma tragédia para as aspirações de solidariedade global dos cidadãos europeus. Os mesmos países europeus que granjearam as simpatias do mundo menos desenvolvido, ao oporem-se à guerra no Iraque, deram as mãos aos EUA, recusando-se a discutir os subsídios à agricultura e a abrir os seus mercados aos produtos dos países asfixiados pelas políticas do FMI ao serviço dos credores europeus. Nem sequer os moveu saber que uma vaca européia consome diariamente mais fundos públicos que o rendimento diário à disposição de cada um dos muitos milhões de habitantes do terço mais pobre da humanidade. Tampouco os moveu saber que, enquanto um refugiado africano “vale” 17 cêntimos de um dólar, um refugiado europeu do Kosovo “vale” quase 2 dólares. Esta hipocrisia impede a UE de emergir como protagonista de uma nova ordem social e econômica mundial mais justa e mais solidária, respeitadora do direito internacional e promotora da resolução pacífica dos conflitos. Os cidadãos do mundo e sobretudo os cidadãos europeus reunidos em Perugia concluíram que o potencial europeu para a construção de uma alternativa ao unilateralismo agressivo só poderá concretizar-se pela pressão organizada, pacífica e permanente da sociedade civil européia, dos partidos progressistas e dos movimentos sociais inconformados com a ignara arrogância de tantos dos nossos governantes. O anúncio, durante a Assembléia, da atribuição do Prêmio Nobel da Paz a uma ativista quase anônima da luta pelos direitos humanos foi um tônico que inundou a alma e a vontade de todos os presentes.
ÚLTIMA REVISIÓN: 17/10/2003 |