Actualidade / ArtigoVolver


Santiago, 27 de abril de 2004

Apertem os cintos
 

César Benjamin-

Caros Amigos

Passado pouco mais de um ano de um mandato previsto para durar 4, o governo está em via de dilapidar todas aquelas condições iniciais favoráveis.



 Clic para aumentar
Alienado e deslumbrado, Lula dedicou um ano a produzir fotografias e frases. “Andou” de skate, “tocou” guitarra e violino, colocou e tirou chapéus, falou de sua falecida mãe, jogou futebol, renovou promessas de palanque, mistificou, mentiu, confundiu, difundiu a paralisia, além, evidentemente, de oferecer intermináveis churrascos e sessões de cinema aos seus convidados.
 
Em toda a América Latina, nunca um governo de esquerda, ou progressista, ou reformista –não importa o rótulo– teve oportunidades tão favoráveis quanto o de Luiz Inácio Lula da Silva.

Em primeiro lugar, constituiu-se em condições políticas internas privilegiadas, quando vistas em perspectiva histórica. Lula recebeu mais de 65 por cento dos votos em uma eleição tranqüila e indiscutivelmente legítima. Sua vitória não despertou rancores. Todos, inclusive os adversários, reconheciam que chegara sua hora. Não se tratava de um aventureiro improvisado, desses que fazem carreira fulminante, mas de um líder respeitado, presente há mais de 25 anos no cenário nacional. Os integrantes das Forças Armadas – assim como os demais funcionários do Estado – votaram maciçamente nele, posicionando-se ao lado da mudança que o povo queria fazer. Não foi a vitória de um homem só. Junto com ela, o PT se tornou o maior partido do Congresso Nacional. Os partidos aliados também se fortaleceram, formando no Legislativo um bloco fortíssimo. Não me lembro de ter ocorrido antes, em nosso continente, essa situação em que os dois poderes explicitamente políticos assumem no mesmo momento uma configuração, em tese, mais harmônica e mais progressista.

A margem de manobra do novo governo, pois, era imensa: opinião pública a favor, sólida base parlamentar, simpatia no meio militar, amplo apoio da Igreja, um partido experiente e organizado nacionalmente, adesão entusiástica de todos os movimentos sociais. E, acima de tudo, um clima difuso de expectativa positiva que impediria qualquer oposição sectária e destrutiva. O povo, profundamente identificado com Lula, exigia pouco: uma nova postura moral e três ou quatro coisas bem-feitas seriam suficientes para manter por muito tempo uma imagem positiva do presidente. As pessoas estavam predispostas a gostar dele e a conceder-lhe crédito. Antes de tudo, queriam poder continuar a sonhar e a cultivar a esperança. Quanto aos movimentos sociais, não reivindicavam rupturas e socialismo. Queriam, principalmente, uma reforma agrária, que poderia ter sido levada adiante sem confrontações com os grupos capitalistas mais importantes, que não estão disputando a posse de terras improdutivas. Espírito republicano e dignidade na condução dos negócios de Estado, reforma agrária no campo e emprego nas cidades, nada mais se pedia.

Na economia, as condições eram favoráveis nas três frentes mais importantes. O ajuste na taxa de câmbio – necessário e inevitável – havia sido feito em meados de 2002, criando condições para a retomada de saldos comerciais consistentes, que se projetavam (e estão se confirmando) para os anos seguintes. Graças a esses saldos, pela primeira vez em muitos anos, o Brasil voltava a ter superávit nas suas contas externas, vistas como um todo. É certo que o ajuste do câmbio teve reflexo nos índices de inflação no segundo semestre de 2002, mas o ônus recaiu sobre o presidente de então, Fernando Henrique Cardoso. Como todos os economistas esperavam, esse efeito começou a arrefecer em novembro, antes da posse. Lula assumiu com inflação baixa e cadente. Em março de 2003 – terceiro mês de seu governo –, os índices já estavam de novo muito perto de zero. Por fim, como a taxa de crescimento havia sido baixa em 2001 e 2002, acumulara-se capacidade ociosa. Estava mais fácil voltar a crescer.

Vejamos agora as condições internacionais. No primeiro ano de governo Lula, os juros básicos permaneceram em torno de 1 por cento ao ano. A oferta de crédito aos países periféricos voltou a ser abundante. Não houve nenhuma nova crise econômica regional em nenhuma parte do mundo. As avaliações de risco dos investidores despencaram. A economia norte-americana teve boa taxa de crescimento (3,1 por cento), puxando as demais. A maioria dos países periféricos cresceu vigorosamente (China, 9,1 por cento; Rússia, 7,3; Argentina, 8,4; Índia, 5,6; Malásia e Tailândia, 4,2 ; e assim por diante). O preço dos principais produtos brasileiros alcançou seus níveis históricos mais altos. Até fatores imprevisíveis – como a febre aftosa em rebanhos da América do Norte e a gripe do frango na Ásia – ampliaram os espaços das nossas exportações. E, do ponto de vista político, Lula era a grande novidade internacional em 2003. Todos os espaços estavam franqueados a ele, operário-presidente de um grande país.

Repito: em nenhum lugar, em nenhuma época, um governo de esquerda teve possibilidades tão favoráveis na América Latina. É óbvio que havia problemas históricos e estruturais, que nossa economia apresentava deficiências e vulnerabilidades, e que a tragédia social brasileira estava aí, a nos desafiar; por causa de tudo isso, afinal, sempre fizemos oposição ao modelo neoliberal. Porém, está na hora de dizer claramente: o discurso que destacou uma “herança maldita” – ou seja, uma crise aguda ou condições imprevistas – foi apenas o guarda-chuva que dissimulou uma das maiores operações de traição, mediocridade e incompetência jamais vista na história.

Estamos diante de uma tragédia de proporções e conseqüências ainda imprevisíveis para o futuro do Brasil. Pois, em condições tão propícias, sob inspiração das forças de esquerda, instalou-se um governo rastejante e inqualificável, sem projetos, sem coragem e sem sonhos. Desde o início ele se dedicou metodicamente a desmobilizar e desmoralizar sua própria base social. Na economia, jogou-se alegremente nos braços da especulação financeira e, na política, do fisiologismo vulgar. Prostrou-se diante do FMI e do sistema financeiro internacional. Sem esboçar nenhuma resistência, continuou a obra de destruição do Estado e de dilaceração da sociedade nacional.

Alienado e deslumbrado, Lula dedicou um ano a produzir fotografias e frases. “Andou” de skate, “tocou” guitarra e violino, colocou e tirou chapéus, falou de sua falecida mãe, jogou futebol, renovou promessas de palanque, mistificou, mentiu, confundiu, difundiu a paralisia, além, evidentemente, de oferecer intermináveis churrascos e sessões de cinema aos seus convidados. Washington Luís dizia que governar era abrir estradas. Nem isso Lula fez. Para ele, governar é divertir-se. Além, é claro, de pagar juros.

Passado pouco mais de um ano de um mandato previsto para durar quatro, o governo está em via de dilapidar todas aquelas condições iniciais favoráveis. Já não inspira confiança em ninguém, a não ser em tipos lombrosianos, profissionais da bajulação. A generosidade do povo começa a se transformar, com razão, em decepção, raiva e cinismo.

O governo Lula acabou com um traque. Tendo como pano de fundo a recessão interminável, o empobrecimento e o desemprego crescentes, foi bastante expor, à opinião pública, um dos muitos “operadores” do PT em ação. A bem da verdade, não era um “operador” qualquer. Era um chefe, ou subchefe, sediado em Brasília, com direito a cafés da manhã com o titular da Casa Civil e a uma sala no Palácio do Planalto. Se fosse investigado, toda a rede ficaria exposta. Para impedir essa investigação, o governo fez haraquiri. Tornou-se refém do que há de pior. Quanto a nós, descobrimos que, no lugar da ética, havia apenas o marketing da ética, num governo em que, afinal, tudo é marketing.

Nosso problema não é mais decifrar aquilo que, em artigo anterior, chamei de “enigma Lula”. Ele está decifrado. Fede. O problema é olhar para a frente. Nos próximos anos, sob a chancela de um Lula fraco e de um PT desfigurado, poderemos assistir aos maiores retrocessos da nossa história. A “reforma” da legislação trabalhista está posta na mesa. A criação da ALCA paira sobre nossas cabeças. A autonomia legal do Banco Central já foi diversas vezes anunciada. O parlamentarismo poderá vir a ser ressuscitado. Nunca foi tão necessário reagrupar as forças progressistas brasileiras para evitar o pior. E lutar. Apertem os cintos. O governo sumiu.


César Benjamin é autor de A Opção Brasileira (Contraponto Editora, 1998, nona edição) e escreve uma análise mensal sobre economia e política econômica no site www.outrobrasil.net


[Artigo tirado da revista 'Caros Amigos', número 85,
abril de 2004]

Volver


Volver ao princípio


Ir á páxina de inicio
Confederación Intersindical Galega
www.galizacig.com

ÚLTIMA REVISIÓN: 27/04/2004
cig.informatica