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Santiago, 10 de febreiro de 2005

Um Fórum para o futuro
 

Boaventura de Sousa Santos-

Agência Carta Maior

O Fórum Social um campo de exuberante experimentação política e organizativa, e o seu contraste com o “possibilismo” estagnado e calculista dos velhos partidos de esquerda não podia ser mais evidente.



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O FSM abre novos horizontes para as lutas políticas, sociais e culturais em prol de uma sociedade moralmente decente, mais justa, mais solidária e mais equilibrada nas suas relações com a natureza. Só resta esperar que a esquerda tradicional se saiba renovar de acordo com este espírito novo. O FSM não aconteceu por ação dessa esquerda. Aconteceu apesar dela. Saberá ela tirar as lições disso?
 
O 5º Forúm Social Mundial, que se realizou em Porto Alegre de 26 a 31 de Janeiro, foi um êxito organizativo e político. Mais uma vez, foi ganha a aposta na experimentação organizativa e metodológica. Desde o início, em 2001, o FSM tem sido dominado por um espírito de risco, contrário ao que domina o pensamento da esquerda tradicional. A realização do primeiro Fórum foi, por assim dizer, um tiro no escuro, e o fato de ter acertado no alvo revelou que estava no ar, em diferentes partes do mundo, uma aspiração difusa à construção de uma alternativa global à globalização neoliberal. O êxito do primeiro Fórum residiu em transformar essa aspiração numa voz nova e dar-lhe a oportunidade de se fazer ouvir. A decisão de realizar o terceiro Fórum em Mumbai foi igualmente uma estratégia de risco. Visou ampliar e diversificar a voz do Fórum com outros tipos de participantes, vivendo outros problemas em contextos culturalmente distintos dos primeiros Fóruns. E, mais uma vez, mereceu a pena correr o risco.

O quinto Fórum, que acaba de realizar-se, obedeceu a uma metodologia totalmente nova, com os temas do debate escolhidos pelos movimentos e associações participantes no Fórum (e não pelos organizadores do Fórum, como acontecera antes) e os dias de trabalho organizados para facilitar o encontro entre movimentos de diferentes países interessados em organizar conjuntamente campanhas e outras ações colectivas. O objetivo foi desenhar uma metodologia que facilitasse a formulação e o planejamento de ações políticas concretas. E, mais uma vez, o objetivo foi alcançado. No próximo ano, o FSM será descentralizado, realizando-se, ao longo do ano, vários Fóruns regionais, alguns dos quais (Marrocos e Venezuela) na mesma data do Fórum Econômico de Davos. Também esta é uma estratégia de risco, na medida em que o objetivo de levar o Fórum a mais públicos colide com a realização de um único megaevento que atraia a mídia mundiais. Em 2007 haverá de novo um FSM unificado, desta vez num país africano ainda por decidir.

O FSM é, assim, um campo de exuberante experimentação política e organizativa, e o seu contraste com o possibilismo estagnado e calculista dos velhos partidos de esquerda não podia ser mais evidente. Está em gestação uma nova cultura política e uma nova forma de fazer política assente nas seguintes idéias: o mundo está em processo acelerado de transformação, e o pensamento e práticas progressistas têm de evoluir a um ritmo correspondente; as lutas pela justiça social das próximas décadas vão exigir uma articulação mais intensa entre as diferentes forças de esquerda e de centro-esquerda, e essa articulação tem de combinar escalas de acção locais, nacionais e globais; esta articulação tem de ser feita com o respeito das diferenças políticas e culturais das organizações, maximizando o que é possível realizar em conjunto, sem perder a autonomia própria; a esquerda é hoje não só politicamente diversa como também culturalmente diversa, e uma esquerda multicultural tem de saber traduzir entre linguagens políticas distintas (p. ex., como traduzir entre os conceitos-chave de dignidade e respeito, centrais nos movimentos indígenas, e os conceitos de luta de classes e socialismo dos movimentos operários); enquanto a velha cultura política só soube politizar polarizando, a nova propõe-se politizar despolarizando, criando pluralidades despolarizadas; é necessária uma nova relação entre partidos progressistas e movimentos sociais e ONGs progressistas para que, com a base de respeito mútuo, possam construir formas democráticas de alta intensidade, assentes na complementaridade entre democracia participativa e democracia representativa; finalmente, está em curso a substituição da monocultura de pensamento de esquerda por uma ecologia de pensamentos, saberes e práticas de esquerda.

Em meu entender, o maior êxito do FSM reside no modo como tem vindo a consolidar e difundir esta nova política de esquerda. E é na base dela que começam a frutificar as propostas concretas de ação coletiva. Não é seguro que tenham êxito, mas a verdade é que o discurso que as sustenta é de tal modo poderoso que está a ser apropriado pelo Fórum Econômico de Davos. A quem lê algumas das declarações de Davos não escapará a idéia de que a grande preocupação que elas revelam ante a pobreza, a injustiça social e a destruição do meio ambiente é o resultado do êxito com que se impôs mundialmente o espírito de Porto Alegre. Claro que entre o discurso e a prática vai uma enorme distância. Davos adota o discurso de Porto Alegre, mas não as propostas concretas para resolver os problemas identificados. É nessas propostas que o FSM se vai daqui em diante concentrar. A opinião pública está madura: para o cancelamento da dívida externa dos países do Sul; para a moratória aos processos de privatização da água; para o desmantelamento dos paraísos fiscais; para a tributação agravada das indústrias de guerra e das que produzem o efeito estufa; para garantir a soberania alimentar das populações; para lutas mais eficazes contra o racismo, o sexismo e a xenofobia; para a democratização profunda das Nações Unidas; para a eliminação de todas as agências financeiras multilaterais em que o voto é medido pela riqueza do país e em que os países atingidos pelas decisões financeiras não têm voz e muito menos o direito de ser indenizados, mesmo quando as próprias agências reconhecem os erros das suas decisões. Finalmente, a opinião pública está madura para um maior ativismo contra o novo colonialismo da agressão militar e para a busca de alternativas aos meios de comunicação social totalmente contaminados pelos interesses capitalistas globais e pelo imperialismo norte-americano.

O FSM abre novos horizontes para as lutas políticas, sociais e culturais em prol de uma sociedade moralmente decente, mais justa, mais solidária e mais equilibrada nas suas relações com a natureza. Só resta esperar que a esquerda tradicional se saiba renovar de acordo com este espírito novo. O FSM não aconteceu por ação dessa esquerda. Aconteceu apesar dela. Saberá ela tirar as lições disso?


Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).


[Artigo tirado do sitio web de 'Agência Carta Maior',
3 de febreiro de 2005]

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