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Santiago, 16 de febreiro de 2005

América Latina: a migração com rosto de mulher
 

Odalys Buscarón-

Vermelho



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Segundo as Nações Unidas, quase 50% dos 175 milhões de migrantes são mulheres, ainda que a própria natureza da migração ilegal a estes países destino torne muito difícil uma aproximação de estatísticas absolutas. A gama de razões pelas quais as mulheres -jovens, chefes de famílias (mães solteiras) e casadas– se incorporem ao movimento migratório é muito diversa, pois passa pela reunificação familiar, a luta pelo sustento seguro para a família, até a busca de um melhor horizonte nos sonhados paraísos da América do Norte e Europa.
 
A tendência crescente da feminização da pobreza no Terceiro Mundo reforça a tese de que daqui a seis anos as mulheres superarão os homens nas contínuas ondas migratórias pelos países desenvolvidos em uma tentativa de sobrevivência. Elas encabeçam junto com meninos e meninas os setores mais vulneráveis das sociedades frente às crises econômicas que golpeiam fortemente as nações empobrecidas, as desigualdades sociais e a exclusão por gênero e classe.

Somente na América Latina, dos 20 milhões de pessoas que abandonaram seu país em 2004, a metade corresponde ao sexo feminino, segundo a Enlaces de América, um site alternativo de notícias sobre este tema.

Mas a globalização fez um marco sem precedentes nos deslocamentos, devido a sua intensidade, em que os fatores econômicos marcam sua formatação nestes tempos. Se partirmos da perspectiva da enorme brecha entre o Terceiro Mundo e os países industrializados, que têm recebido com prontidão –e amplitude– as bondades da mundialização da economia, os custos de um maior atraso e exploração dos pobres.

Crises econômicas e políticas de ajuste propiciaram entre a década de 90 e os primeiros anos do presente século o aumento do contrabando de pessoas, já que muitas mulheres embarcaram em perigosas travessias para escapar da pobreza. Sem esquecermos, obviamente, o deslocamento forçado por razões políticas, guerras e conflitos inter-étnicos, que em sua medida tornam vulneráveis as mulheres.

O filósofo alemão Robert Kurz, ao se referir à chamada “terceira revolução industrial”, a era que vivemos, opinou acertadamente que o capital transnacional cria cada vez mais excluídos no planeta. Neste panorama, insere o fenômeno migratório com um leque de leituras necessárias, nos quais sobressai o perfil feminino pela presença cada vez maior destas na inserção do mercado de trabalho internacional, seja pela via legal ou “subterrânea”.

Segundo as Nações Unidas, quase 50% dos 175 milhões de migrantes são mulheres, ainda que a própria natureza da migração ilegal a estes países destino torne muito difícil uma aproximação de estatísticas absolutas. A gama de razões pelas quais as mulheres -jovens, chefes de famílias (mães solteiras) e casadas– se incorporem ao movimento migratório é muito diversa, pois passa pela reunificação familiar, a luta pelo sustento seguro para a família, até a busca de um melhor horizonte nos sonhados paraísos da América do Norte e Europa.

Enquanto ao preocupante aumento dos movimentos humanos, sobretudo percebido entre os países receptores, o tráfico de pessoas com fins comerciais constitui uma aresta importante deste fenômeno, onde as mulheres são vítimas das piores formas de exploração.


América Latina

Poucos países latino-americanos escapam da fuga de setores populacionais chaves no mercado de trabalho nacional e no equilíbrio demográfico, como o juvenil e o feminino, pelas desigualdades e a falta de oportunidades com igualdade.

No México, qualificado como o país de mais migrantes da região, segundo a Federação Mexicana de Universidades, padece uma das maiores ondas migratórias para os Estados Unidos, com uma quantidade anual superior a 40%. Entre 1995 e 2000, 26 de cada 100 mexicanos que cruzaram a fronteira sem documentos eram mulheres. Hoje, a cifra está dobrada. Com o peso de representar 20% das remessas totais emitidas por mexicanos desde os Estados Unidos e apesar de receberem salários inferiores aos homens pelas empresas norte-americanas, elas exercem a chefia de famílias à distância.

O drama do desenraizamento cultural e da discriminação é enfrentado duplamente. Depois de abandonar o país de origem, estão próximas de outros perigos no cruzamento da fronteira como violações, maus tratos, o tratamento com objetivos de exploração sexual e a Aids. De acordo com o estudo sobre Abuso contra Migrantes e Defesa de Sua Dignidade, cerca de 50 mil mulheres e crianças ingressam nos Estados Unidos através das redes de tráfico orquestradas pelos chamados coiotes, em troca de espetaculares somas de dinheiro.

Uma outra cara do fluxo migratório acontece no interior da região da nação mexicana, onde por sua vez figuram os receptores do contrabando humano da América Central com cerca de cinco mil adolescentes e jovens que são exploradas em diversas cidades.


Cruzar o Atlântico

As latino-americanas, por outro lado, são as responsáveis pelo novo perfil da migração pela Europa, com pouco mais da metade de sua presença na Espanha e Itália, por exemplo. Colombianas, bolivianas, equatorianas, peruanas, uruguaias, bolivianas, argentinas, brasileiras e paraguaias superam a seus respectivos companheiros na ajuda econômica que prestam aos parentes, no segundo destino mais procurado para migração, depois dos Estados Unidos.

Sem considerar as centenas que integram a indústria do sexo, muitas delas desempenham empregos de baixa qualificação com alta demanda como o serviço doméstico, o cuidado com crianças e os hotéis, segundo um informe da Organização Internacional das Migrações (OIM).

Especialistas explicam, neste caso, a feminização da migração internacional pelo fato de que as formas tradicionais do “trabalho feminino” são rechaçadas pelas mulheres das nações industrializadas e por isso atribuídas a suas semelhantes de outras latitudes.

Com estas tendências do fenômeno migratório e do inegável papel das mulheres na dinâmica econômica internacional, urgem políticas supranacionais de proteção dos direitos de gênero e de promoção de melhores oportunidades para o pleno desenvolvimento.


Odalys Buscarón, jornalista da Redação de América do Sul da Prensa Latina.


[Artigo tirado do 'Diário Vermelho' do Brasil, 11 de febreiro de 2005]

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