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Santiago, 7 de novembro de 2007

O ano I do assalto ao céu
 

Emir Sader-

Agência Carta Maior


Nascida na periferia do sistema capitalista, a revolução socialista russa entretanto não conseguiu se estender para algum país do centro, que poderia resgatá-la, e ficou isolada. O fracasso da revolução alemã praticamente definiu o destino da revolução russa.



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A Comuna de Paris, de 1871, tinha sido a primeira vez que trabalhadores tomavam o poder, mas durou somente algumas semanas. Em 1917 se instalava o primeiro governo que se proclamara operário-camponês, que rompia com o capitalismo e o bloco de potências imperialistas.
 
Noventa anos depois da vitória da Revolução Russa, parece difícil reconstruir o que foi o ano de 1917 para a História posterior. Basta dizer que naquele ano os EUA, depois de terem teorizado seu isolacionismo, distanciando-se da guerra na Europa, deram uma virada drástica e seu governo resolveu mobilizar a opinião pública para intervir no conflito bélico. Entrariam para decidir a guerra e, principalmente, debilitar o concorrente imediato à sucessão da Inglaterra decadente como nova potência hegemônica.

Ao mesmo tempo, a Rússia, com a vitória bolchevique, se retirava da guerra. Começava a se desenhar o mundo bipolar da segunda metade do século naquele duplo movimento.

Hoje, o clima instalado após o fim da URSS torna quase impossível imaginar o impacto que a Revolução Russa representou para a História da humanidade. A Comuna de Paris, de 1871, tinha sido a primeira vez que trabalhadores tomavam o poder, mas durou somente algumas semanas. Em 1917 se instalava o primeiro governo que se proclamara operário-camponês, que rompia com o capitalismo e o bloco de potências imperialistas.

O livro de Victor Serge, O ano I da Revolução Russa, publicado em belíssima edição pela Boitempo, permite a melhor reconstrução daquele momento mágico de “assalto ao céu”, em que todas as utopias andavam soltas. Quebrada a carcaça que bloqueava o desenvolvimento da sociedade russa, sob o impacto da guerra interimperialista, afloraram todos os sonhos libertários da humanidade, justamente em um país “atrasado”, asiático, não na Europa “avançada”, como seria se tivesse ocorrido na Inglaterra, na Alemanha ou na França.

As potências ocidentais acusaram o golpe, a ameaça do que aquela revolução representava e onze exércitos invadiram a Rússia, apoiando a contra-revolução –talvez numa primeira versão das “guerras humanitárias”. O jovem poder soviético sofreu, além das destruições e sofrimentos provocados pela participação na guerra interimperialista a que o czarismo tinha levado o país e os mencheviques deram continuidade, as agressões militares e o bloqueio econômico. Para castigar o péssimo exemplo e tentar inviabilizar a sobrevivência do poder anticapitalista.

Um poder que sobreviveu com um regime de comunismo de guerra, repartindo o pouco de que dispunham, mas que suscitava a atenção e a solidariedade mundiais. A grande aventura utópica passou a ser visitar a URSS, o único país no mundo que –como disse recentemente uma espiã inglesa que trabalhava para os bolcheviques, justificando sua atitude– dava de comer a todos os operários e camponeses.

Nascida na periferia do sistema capitalista, a revolução socialista russa entretanto não conseguiu se estender para algum país do centro, que poderia resgatá-la, e ficou isolada. O fracasso da revolução alemã praticamente definiu o destino da revolução russa e o itinerário das revoluções, em vez de marchar para a Europa ocidental, se dirigiu para a Ásia, para um país ainda mais periférico: a China.

O socialismo, que deveria ser, na concepção de Marx, a negação e a superação do capitalismo, com a incorporação do desenvolvimento promovido por este, pelas ironias da História, terminava polarizando a periferia atrasada contra o centro rico, mantido pelo capitalismo. Olhando noventa anos depois, parece uma fatalidade; mas não foi assim. A História sempre apresenta alternativas e o destino do capitalismo e do socialismo continua aberto.

Os tempos heróicos descritos por Victor Serge em seu livro servem para sentirmos de perto os sonhos, os dramas e os impasses que um processo revolucionário contém no seu bojo. São os momentos em que a história está mais perto de ser definida pela ação consciente dos homens. Não por acaso a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Revolução Cultural chinesa, a Revolução Cubana foram incorporadas definitivamente ao acervo dos maiores momentos da História da humanidade. Momentos em que os homens e as mulheres puderam tomar o céu por assalto.


[Artigo tirado do sitio web de 'Agência Carta Maior',
25 de outubro de 2007]

 
 
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