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Santiago, 8 de xaneiro de 2008

2007: o pior ano da guerra americana
 

Francisco Carlos Teixeira-

Agência Carta Maior


O ano foi marcado pelo aprofundamento da crise de liderança dos Estados Unidos. A capacidade da grande nação em definir cursos de ação e impor seus projetos foi corroída ao máximo, chegando ao ponto mais baixo da história.



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No seu conjunto o ano de 2007 foi o mais duro ano depois do início da guerra em 2003, alcançando a cifra de 897 soldados americanos mortos (em 2003 foram 486; em 2004, 849; em 2005, 846; em 2006, 822). As repetidas alegações de Bush que a situação no Iraque melhora a cada dia são, assim, desmentidas pela simples apresentação das estatísticas de baixas americanas no país.
 
O ano foi marcado pelo aprofundamento da crise de liderança –de hegemonia, para muitos– dos Estados Unidos em face ao mundo. A capacidade da grande nação em definir cursos de ação e impor seus projetos foi corroída ao máximo, chegando ao ponto mais baixo da história. E isso não se deu apenas no plano político.

A crescente mudança de perfil dos Estados Unidos no conjunto da economia mundial ( seu peso era de cerca 50% do PIB mundial em 1947, passando para cerca de 24 % em 2007 ), somada a crise das hipotecas e seu impacto sobre o sistema de crédito americano, além da manutenção do elevadíssimo déficit duplo do país. Tal modelo acabou por corroer o papel do dólar no conjunto da economia mundial.

Neste contexto, a Administração Bush perdeu substância e força, acentuada pela vitória do Partido democrata em ambas as casas do parlamento americano. Além disso, a retirada de vários altos funcionários – alguns, como Alberto Gonzáles e Karl Rove por força de ações da Justiça americana - transformou Bush num homem isolado e solitário na Casa Branca.

O modelo de gestão econômica de Bush – que chegou a seduzir as elites perdulárias e anti-nacionais “urbi et orbi” também entrou em colapso. A idéia simples – e amalucada – que se poderia cortar impostos, em especial impostos sobre as grandes fortunas, e aumentar continuamente os gastos militares ( batendo todos os recordes de orçamentos militares ) mostrou-se exatamente como uma idéia simples e... errada!

Contudo, mesmo que a economia esteja apresentando sinais evidentes de cansaço e modelo liberal-fundamentalista de economia praticado por Bush tenha se desmantelado, é no Iraque que o vazio de decisões torna-se mais evidente. As expectativas em torno de uma “virada” na Guerra do Iraque, em especial depois do Relatório Baker, no primeiro semestre de 2007, e do Plano de Ação do General Petraeus, no segundo semestre de 2007, não resultaram em qualquer melhoria das condições de segurança e de reconstrução no país. Bem ao contrário. Hoje os Estados Unidos computam 3.919 baixas “oficiais” no país ( das quais 132 foram suicídios! ).


A Guerra no Iraque

No seu conjunto o ano de 2007 foi o mais duro ano depois do início da guerra em 2003, alcançando a cifra de 897 soldados americanos mortos (em 2003 foram 486; em 2004, 849; em 2005, 846; em 2006, 822). As repetidas alegações de Bush que a situação no Iraque melhora a cada dia são, assim, desmentidas pela simples apresentação das estatísticas de baixas americanas no país.

O reconhecimento, implícito, silencioso, do fracasso da política militar americana para o Iraque consolidou-se na exoneração de Donald Rumsfeld ( afastado em novembro de 2006 ) e na sua substituição por um “kissingeriano” de última fila, Robert Gates. A imensa expectativa em “revolucionar” a arte da guerra, impondo a superioridade americana global através do uso maciço de alta tecnologia e da poupança de “manpower”, mostrou-se irreal numa guerra de tipo assimétrico, baseada na baixa organização e grande mobilidade do inimigo – e travada no meio urbano, como uma guerra das cidades.

Os dados do Pentágono, põem por terra o mito de uma guerra iraquiana como sendo uma guerra “hispânica”, da mesma forma que a Guerra do Vietnã teria sido uma “guerra negra”. Na verdade, os brancos pobres e desempregados dos Estados Unidos formam a massa principal de combatentes – e daí os quase 75% de baixas ditas “brancas” –hoje no Iraque. A centralidade das tropas combatentes em pessoal de pequenas e médias cidades do interior americano, onde a desindustrialização avança sobre os setores tradicionais da economia, explica, claramente, a atual incapacidade dos estados Unidos em constituir um amplo exército de voluntários para suas necessidades.


O massacre de um povo

O pior de tudo, contudo, são as baixas de civis iraquianos, massacrados no torno dos ataques terroristas e as retaliações das milícias xiitas, sunitas e das forças “da ordem”, sejam iraquianas, sejam americanas. Números conservadores, muito conservadores, falam em 86.060 mortos civis iraquianos no final de 2007, conforme o “Iraq Body Count”. Fontes independentes, como “The Lancet”, entretanto, aproximam este número de 500 mil.

Entre as forças de segurança iraquianas, um alvo preferencial da resistência, as baixas acumuladas chegaram a 16,997, conforme fontes americanas ou 7.756, conforme fontes iraquianas. A diferença explicar-se-ia pela inclusão de outras funções no computo geral. Os ataques contra policiais, bombeiros, paramédicos, funcionários de necrotérios, etc... na maioria das vezes atingindo locais de recrutamento e de preparação de jovens, visa aterrorizar a população e impedir que o frágil Estado iraquiano cumpra com suas funções mínimas. A ação sistemática contra os postos de alistamento e os serviços de segurança estão atrasando, e mesmo impedindo, a formação de um contingente apto a substituir as tropas americanas no país – um dos pilares de uma possível política de desengajamento americano na região.

O número acumulado de “combatentes hostis” mortos, quer dizer de membros das variadas formas de resistência, sob registro americano, atingiram 3.415 em 2007. Mesmo aqui os números não são confiáveis e a margem de sub-registro é imensa.

A morte de civis em serviço das forças armadas americanas no Iraque – os chamados “contractors” atingiu 1001 indivíduos ao final de 2007. Aqui cabe, também, desmistificar outro “senso comum” da Guerra do Iraque. Embora o número de “contractors” civis, ligados a grandes firmas de segurança atuando no país, possa chegar a algo como 40.000 homens, a maioria é formada por não-combatentes. A visão de um imenso exército civil – o segundo em “manpower”, depois dos EUA – deve ser revista. Um estudo detalhado da função, condições e forma da morte destes mil homens mostra que a grande maioria morreu em emboscadas enquanto se locomoviam no país ou prestavam serviços paralelos – pouquíssimos morreram efetivamente em combate. Da mesma forma temos que reformar nosso conhecimento sobre a atuação destes homens: a grande maioria é formada por americanos, seguidos de britânicos, sul-africanos e russos. Hispânicos e asiáticos são minoria e, quase sempre, ligados a serviços subalternos de manutenção e limpeza.


Bagdad, a capital da violência

As províncias de Al-Anbar, na fronteira com a Síria, de Bagdad e de Salah ad-Din – de amplo povoamento sunita - continuam sendo as áreas de maior atividade da insurgência anti-americana, mesmo depois do amplo programa de securitização de Bagdad posto em prática pelo General Petraeus, atingindo respectivamente 1279, 1213 e 367 baixas. Só Al-Anbar e Bagdad, em conjunto, representaram cerca de 68% das baixas americanos, evidenciando a incapacidade americana de “securitizar” áreas restritas do país. Em termos de perdas civis, iraquianas, Bagdad é, de longe, a região mais perigosa do país, com cerca 59% de todas as baixas.

De qualquer forma, o Iraque não foi pacificado, nem se tornou um pólo de desenvolvimento regional capaz de “semear” democracia e bem-estar por toda a região, como imaginavam os sonhos “neoconservadores” em 2003. A Administração Bush chega assim ao seu último ano sem conseguir atingir seus objetivos no país e, mesmo, sem qualquer plano de ação para minorar a situação. Esta será, sem duvida, uma das mais pesadas heranças do governo Bush para seu sucessor nas eleições de 2008.

A diminuição das ações militares no país nos dois últimos meses – depois de um “pico” de abril/maio de 2007 ( 104 e 126 mortos, respectivamente ) deve-se, em grande parte, ao maior controle sobre o uso, por parte da resistência, das chamadas “roadside bomba”, aparentemente em virtude de um controle, também maior, por parte das autoridades iranianas, temerosas de acirrar o enfrentamento com os Estados Unidos, criando a oportunidade para um “casus beli” tão buscado em Washington.


No Afeganistão, a guerra se expande

Contudo, comparativamente o ano de 2007 foi muito mais preocupante no Afeganistão, mesmo que as baixas aí registradas não tenham sido tão elevadas quanto no Iraque. Ocorre que o país evoluiu, depois da invasão em 2001, de uma situação de total desarticulação dos talibães e do isolamento da Al-Qaeda nas montanhas, para uma bem organizada e ativa resistência depois de 2006.

Na verdade, quando os Estados Unidos, em dezembro de 2001, abandonaram os combates na Batalha de Tora-Bora, deixando a ação nas mãos de tropas locais, inaugurou uma gestão ineficaz da guerra. Ali, por um breve espaço de tempo, os americanos tiveram a oportunidade de liquidar de vez a Al-Qaeda e prender ou matar o Mullah Omar e Bin Laden. Contudo, o medo das baixas e a crença que a guerra no Afeganistão seria irrelevante, mais uma “guerra no fim do mundo”, tornou ação de Rumsfeld displicente e descuidada.

A invasão do Iraque, 15 meses depois, desviou recursos materiais, humanos e vontade de cão para o novo cenário de guerra, permitindo que a resistência Talibã-Al-Qaeda tivesse o tempo necessário para respirar e se reorganizar. Vieram os ataques a Madrid, Londres, além daqueles frustrados na Itália, França e Alemanha. O terrorismo “mujahidin” triplicou sua ação mundial.

Uma nova Al-Qaeda ressurge depois de 2005. Suas “franquias” expandem-se em várias “al-qaedas”, numa nebulosa reticular, de estruturas moles, não-hierárquica e de grande capacidade de implantação. Além da “Al-Qaeda na Terra dos Dois Rios” ( Iraque ), surgem outras ramificações, tais como Al-Qaeda na Terra Santa ( Arábia Saudita), Al-Qaeda no Sahel ( Sudão/Tchad ) e a Al-Qaeda no Maghreb ( Argélia ) – a mais ativa e temível neste momento.

Na verdade hoje o Governo Karzai, em Kabul, controla bem menos que uma área de 30 quilômetros em torno da cidade. Mesmo no centro de Kabul, os atentados mostraram-se bem mais ativos, em 2007, do que nos anos precedentes. Ao mesmo tempo, e de forma preocupante, a emergência de ataques de homens-bomba – algo raro até 2006 no cenário do país – mostra o acirramento da resistência anti-americana e anti-OTAN existente no país.

A política de Pervez Musharaff, presidente do Paquistão, de pacificar o Waziristan – na fronteira entre os dois países – e que culminou na retirada da autoridade militar paquistanesa da região, parece ter fortalecido as milícias Talibã-Al Qaeda, sem nenhum sucesso para a diminuição da ação de resistência no próprio Afeganistão. Na verdade, deu-se uma intensificação das ações insurgentes, em especial junto a Kandahar no sul do país. A ida de Romano Prodi e Nicolas Sarkozy, em dezembro de 2007, ao país – com a reafirmação do compromisso da OTAN em pacificar o Afeganistão – marca bastante bem o aprofundamento da crise de segurança regional. Sem qualquer dúvida, a morte de Benazir Bhutto e a situação de caos e insegurança no Paquistão deverá incidir fortemente sobre o Waziristan – onde se supõe estão o Mullah Omar e o próprio Bin Laden – podendo fortalecer a resistência islâmica local.

Em suma, 2007 não foi um bom ano para a Guerra Americana contra o terrorismo Global, nem mesmo atingiu resultados mínimos nos conflitos do Iraque e no Afeganistão. A resolução dos conflitos em curso será parte da herança de George Bush.


[Artigo tirado do sitio web de 'Agência Carta Maior',
29 de decembro de 2007]

 
 
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