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Actualidade / Artigo Paquistão, depois do assassinato de
Bhutto: Tariq Ali-
Escrevi este parágrafo inicial no longo ensaio para a London Review of Books no começo de Dezembro. Que a violência tenha chegado a este ponto não me surpreende. O choque inicial do assassinato de Benazir Bhutto vai ficando para trás e torna-se necessária avaliar desapaixonadamente as suas prováveis consequências, evitando a piedade que invade as páginas dos grandes meios de comunicação globais. Praticamente tudo o que se escreve nos jornais ou mostram as televisões é enganoso e dir-se-ia concebido para iludir a a discussão do que, verdadeiramente, está em jogo. Por que é que Negroponte e os acólitos britânicos estavam tão decididos a dar esse remédio à crise paquistanesa? O que qensavam conseguir? Que «mundo novo» tinham fantasiado? Quase todas as suas suposições eram baseadas em factos sistemática e selectivamente retocados, distorcidos ou exagerados, a fim de evitar qualquer responsabilidade ocidental na actual crise. Na medida em que, com pequenas e insignificantes variações, vinham a repetir tudo até à exaustão nos meios de comunicação globais, não será ocioso examinar cada um dos principais argumentos esgrimidos: a) O Paquistão é um estado nuclear, o único país muçulmano com armas atómicas e que fez testes nucleares. Se os jahidistas/al-Qaeda pusessem as mãos nessas armas corria-se o risco de que pudesse desencadear um holocausto nuclear. Há que apoiar Musharraf porque se opõe vigorosamente a essa possibilidade. Recorde-se que o Paquistão aperfeiçoou o seu armamento nuclear nos anos 80, durante a ditadura do general Zia ul Haq, incondicional aliado de Washington e peça central da então chamada guerra contra o império do mal (a URSS) no Afeganistão. Os EUA estavam a tal ponto obcecados com o conflito com os russos, que resolveram organizar uma rede jihadista global para recrutar militantes para a guerra santa no Afeganistão e assobiar para o lado durante a pouco dissimulada construção dos silos nucleares paquistaneses. As instalações nucleares estão sujeitas a um controlo militar muito rígido. Não há a menor possibilidade de que um grupo extremista possa escapar ao controlo de um exército de meio milhão de soldados. O pentágono e a CIA sabem muito bem que a estrutura de comando militar do Paquistão nunca foi derrotada e que os generais dependem do financiamento e do armamento militar norte-americano. Mês após mês, o exército paquistanês presta contas ao CENTCOM da Florida (comando central estadunidense para operações no estrangeiro) das suas actividades na fronteira afegã-paquistanesa. O exército como instituição é quem responde a essas exigências, e não apenas os generais. E Musharraf já não tem a menor legitimidade neste tema pois abandonou o uniforme. Daqui a insistência de Bush para que o processo eleitoral seguisse o seu curso, apesar do boicote massivo dos processos judiciais paralizados, do chinfrim dos meios de comunicação, da existência de importantes políticos sob prisão domiciliária e da execução pública da senhora Bhutto. Se Benazir Bhutto tivesse decidido boicotar as eleições (o que significaria romper o acordo com Washington), continuaria viva. b) O Paquistão é um Estado em bancarrota, à beira do colapso e rodeado de jihadistas decididos e furiosos na expectativa. Daqui a exigência de uma alternativa não religiosa e o papel de Benazir Bhutto a ajudar Musharraf a conseguir um pouco da legitimidade que necessita urgentemente. O Paquistão não é um «estado fracassado» no mesmo sentido em que o são o Congo ou o Ruanda. É um Estado que funciona mal, e nessa condição se manteve durante quase quatro décadas. Por vezes, a situação é melhor, outras é pior. No cerne do seu mau funcionamento está o domínio do país pelo exército, e cada novo governo militar mais não fez do que piorar a situação. Foi isso que impediu a estabilidade política e tornou impossível o aparecimento de instituições estáveis. E nisso têm os EUA responsabilidade directa, visto que sempre consideraram – e continuam a considerar – o exército como a única instituição que pode tratar o pedrulho movimentado pelas agitadas águas. Economicamente, o país apoia-se, desequilibradamente, numa elite corrupta e ultra rica, mas isso é do agrado do consenso de Washington. Por isso o Banco Mundial sempre foi pródigo em elogios para as políticas de Musharraf. A última crise é a consequência directa da guerra e da ocupação do Afeganistão pelas forças da NATO, que desestabilizaram a fronteiro noroeste do Paquistão, gerando uma crise de consciência no seio do exército. É uma fonte de desencanto ser pago para matar camaradas muçulmanos nas áreas tribais fronteiriças entre o Paquistão e o Afeganistão. A conduta arrogante e humilhante dos soldados da NATO não ajuda nada a resolver os problemas entre ambos os países. O envio de tropas estadunidenses para treinar os militantes paquistaneses na contra-insurreição, quase seguramente, provocará uma ulterior inflamação dos ânimos. O Afeganistão só poderá ser estabilizado através de um acordo regional que envolva a Índia, a Rússia, o Irão e o Paquistão e que seja acompanhado da retirada total das tropas da NATO. As tentativas dos EUA para evitar isso reforçam a crise em ambos os países. Musharraf fracassou no seu papel de homem chavedos EUA no Paquistão. A sua incapacidade em proteger Benazir Bhutto foi mal recebida em Washington, que pode mudar de pedra este ano e voltar a depositar as suas esperanças no general Ashfaq Kayani, que já substituiu Musharraf como chefe do exército. Mais difícil será substituir Benazir Bhutto. Os irmãos Sharif não são confiáveis, e estão demasiado próximos dos sauditas. As eleições serão grosseiramente manipuladas, o que lhes retirará qualquer credibilidade. A escura noite está muito longe do fim.
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ÚLTIMA REVISIÓN: 08/01/2008 |
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