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Santiago, 8 de xaneiro de 2008

Paquistão, depois do assassinato de Bhutto:
A distorcida percepção do Ocidente
 

Tariq Ali-

ODiario.info


A constante intervenção dos EUA no Paquistão, onde há quatro décadas os líderes jogam o papel de marionetes do imperialismo, somada à agressão da NATO no Afeganistão retiram qualquer esperança ao fim próximo da «noite escura» em que aqueles povos mergulharam.



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O choque inicial do assassinato de Benazir Bhutto vai ficando para trás e torna-se necessária avaliar desapaixonadamente as suas prováveis consequências, evitando a piedade que invade as páginas dos grandes meios de comunicação globais. Praticamente tudo o que se escreve nos jornais ou mostram as televisões é enganoso e dir-se-ia concebido para iludir a a discussão do que, verdadeiramente, está em jogo.
 
«Os casamentos combinados podem ser um problema complicado. Concebidos primordialmente como instrumento de acumulação de riquezas, eles não servem para superar indesejáveis discussões amorosas nem para evitar aventuras amorosas clandestinas. Se é notório que os contraentes se detestam mutuamente, só um pai desapiedado, de sensibilidade embotada pela perspectiva do lucro imediato, insistirá num processo, cujo infeliz desenlace ele conhece perfeitamente. Que isto também é válido na vida política, é coisa que foi cristalinamente revelado pela recente tentativa de Washington de unir Benazir Bhutto e Pervez Musharraf. De firme e decidido pai único fez neste caso duas vezes um desesperado Departamento de Estado – com John Negroponte no papel de diabólico intermediário e Gordon Brown, no de cortesã amuada – assaltado pelo medo de não conseguir impor-se aos potenciais e ficar demasiado velho para se reciclar».

Escrevi este parágrafo inicial no longo ensaio para a London Review of Books no começo de Dezembro. Que a violência tenha chegado a este ponto não me surpreende. O choque inicial do assassinato de Benazir Bhutto vai ficando para trás e torna-se necessária avaliar desapaixonadamente as suas prováveis consequências, evitando a piedade que invade as páginas dos grandes meios de comunicação globais. Praticamente tudo o que se escreve nos jornais ou mostram as televisões é enganoso e dir-se-ia concebido para iludir a a discussão do que, verdadeiramente, está em jogo.

Por que é que Negroponte e os acólitos britânicos estavam tão decididos a dar esse remédio à crise paquistanesa? O que qensavam conseguir? Que «mundo novo» tinham fantasiado? Quase todas as suas suposições eram baseadas em factos sistemática e selectivamente retocados, distorcidos ou exagerados, a fim de evitar qualquer responsabilidade ocidental na actual crise. Na medida em que, com pequenas e insignificantes variações, vinham a repetir tudo até à exaustão nos meios de comunicação globais, não será ocioso examinar cada um dos principais argumentos esgrimidos:

a) O Paquistão é um estado nuclear, o único país muçulmano com armas atómicas e que fez testes nucleares. Se os jahidistas/al-Qaeda pusessem as mãos nessas armas corria-se o risco de que pudesse desencadear um holocausto nuclear. Há que apoiar Musharraf porque se opõe vigorosamente a essa possibilidade. Recorde-se que o Paquistão aperfeiçoou o seu armamento nuclear nos anos 80, durante a ditadura do general Zia ul Haq, incondicional aliado de Washington e peça central da então chamada guerra contra o império do mal (a URSS) no Afeganistão. Os EUA estavam a tal ponto obcecados com o conflito com os russos, que resolveram organizar uma rede jihadista global para recrutar militantes para a guerra santa no Afeganistão e assobiar para o lado durante a pouco dissimulada construção dos silos nucleares paquistaneses.

As instalações nucleares estão sujeitas a um controlo militar muito rígido. Não há a menor possibilidade de que um grupo extremista possa escapar ao controlo de um exército de meio milhão de soldados. O pentágono e a CIA sabem muito bem que a estrutura de comando militar do Paquistão nunca foi derrotada e que os generais dependem do financiamento e do armamento militar norte-americano. Mês após mês, o exército paquistanês presta contas ao CENTCOM da Florida (comando central estadunidense para operações no estrangeiro) das suas actividades na fronteira afegã-paquistanesa. O exército como instituição é quem responde a essas exigências, e não apenas os generais. E Musharraf já não tem a menor legitimidade neste tema pois abandonou o uniforme. Daqui a insistência de Bush para que o processo eleitoral seguisse o seu curso, apesar do boicote massivo dos processos judiciais paralizados, do chinfrim dos meios de comunicação, da existência de importantes políticos sob prisão domiciliária e da execução pública da senhora Bhutto. Se Benazir Bhutto tivesse decidido boicotar as eleições (o que significaria romper o acordo com Washington), continuaria viva.

b) O Paquistão é um Estado em bancarrota, à beira do colapso e rodeado de jihadistas decididos e furiosos na expectativa. Daqui a exigência de uma alternativa não religiosa e o papel de Benazir Bhutto a ajudar Musharraf a conseguir um pouco da legitimidade que necessita urgentemente.

O Paquistão não é um «estado fracassado» no mesmo sentido em que o são o Congo ou o Ruanda. É um Estado que funciona mal, e nessa condição se manteve durante quase quatro décadas. Por vezes, a situação é melhor, outras é pior. No cerne do seu mau funcionamento está o domínio do país pelo exército, e cada novo governo militar mais não fez do que piorar a situação. Foi isso que impediu a estabilidade política e tornou impossível o aparecimento de instituições estáveis. E nisso têm os EUA responsabilidade directa, visto que sempre consideraram – e continuam a considerar – o exército como a única instituição que pode tratar o pedrulho movimentado pelas agitadas águas.

Economicamente, o país apoia-se, desequilibradamente, numa elite corrupta e ultra rica, mas isso é do agrado do consenso de Washington. Por isso o Banco Mundial sempre foi pródigo em elogios para as políticas de Musharraf.

A última crise é a consequência directa da guerra e da ocupação do Afeganistão pelas forças da NATO, que desestabilizaram a fronteiro noroeste do Paquistão, gerando uma crise de consciência no seio do exército. É uma fonte de desencanto ser pago para matar camaradas muçulmanos nas áreas tribais fronteiriças entre o Paquistão e o Afeganistão. A conduta arrogante e humilhante dos soldados da NATO não ajuda nada a resolver os problemas entre ambos os países. O envio de tropas estadunidenses para treinar os militantes paquistaneses na contra-insurreição, quase seguramente, provocará uma ulterior inflamação dos ânimos. O Afeganistão só poderá ser estabilizado através de um acordo regional que envolva a Índia, a Rússia, o Irão e o Paquistão e que seja acompanhado da retirada total das tropas da NATO. As tentativas dos EUA para evitar isso reforçam a crise em ambos os países.

Musharraf fracassou no seu papel de homem chavedos EUA no Paquistão. A sua incapacidade em proteger Benazir Bhutto foi mal recebida em Washington, que pode mudar de pedra este ano e voltar a depositar as suas esperanças no general Ashfaq Kayani, que já substituiu Musharraf como chefe do exército. Mais difícil será substituir Benazir Bhutto. Os irmãos Sharif não são confiáveis, e estão demasiado próximos dos sauditas. As eleições serão grosseiramente manipuladas, o que lhes retirará qualquer credibilidade. A escura noite está muito longe do fim.


[Artigo tirado da revista electrónica ‘ODiario.info’, 3 de xaneiro de 2007]

 
 
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