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Santiago, 12 de xaneiro de 2008

Mudança de época na América do Sul
 

Ronaldo Carmona-

Vermelho


2007 também marcou –e projeta para 2008- a reaglutinação da contra-tendência, que põe adiante uma contra-ofensiva que busca condicionar, bloquear ou até destituir as experiências de mudanças em cada uma dos países. O revés da reforma constitucional na Venezuela e a crise política na Bolívia são os fatores mais salientes dessa contra-ofensiva da direita em combinação com o imperialismo norte-americano e dão pistas de que a luta mudanças x retrocessos se intensificará em 2008.



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A luta pela integração sul-americana registra passos positivos em 2007 –ainda que, em sua velocidade, insuficiente. O Mercosul, núcleo mais desenvolvido da integração, como vimos, já não é mais o mesmo de 1997, mas é pressionado a efetivar de forma mais acelerada a agenda nova dos governos progressistas, cujo centro é a diminuição das assimetrias regionais pela promoção da industrialização, da complementação produtiva e do desenvolvimento econômico. Esse é seu estagio atual.
 
Vista em comparação com hoje, a placa de inauguração do Edifício-sede do Mercosul na Rambla Presidente Wilson, às margens do Rio da Prata, em Montevidéu –datada de 15 de dezembro de 1997– é uma expressão simbólica da mudança de época na atual América do Sul. A lista dos presidentes dos países-membros à época, em relação aos de hoje, faz o visitante lembrar-se da fase cunhada pelo presidente Correa, do Equador, que otimista, chega a falar em fim da longa e triste noite neoliberal na região.

Na placa de 1997, figura o anfitrião, Julio Sanguinetti, do liberal Partido Colorado; o ultraliberal Carlos Menem, pela Argentina; Fernando Henrique Cardoso, pelo Brasil; Juan Carlos Wasmosy, colorado de direita, pelo Paraguai; o ex-ditador Hugo Banzer, pela Bolívia, então convertido ao neoliberalismo radical; e finalmente, Eduardo Frei, o democrata-cristão (centro-direita), presidente do Chile.

Não figuram na placa, mas figuram na lista dos presidentes sul-americanos de então, o peruano Alberto Fujimori, atualmente sendo julgado no Peru; pelo Equador, Fabian Alarcon, um interino, produto de solução entre uma deposição e outra que se sucederam no país, por anos; pela Colômbia, o liberal Ernesto Samper; por fim, pela Venezuela, o democrata-cristão do Copei, Rafael Caldera.

Apenas dez anos depois, na lista dos dez sul-americanos, apenas a Colômbia de Uribe e o Peru de Alan Garcia – este recém convertido – manter-se-iam ideologicamente na lista anterior, conservadora e neoliberal. Sinal dos novos tempos na região.


A mudança pede passagem

Com a vitória de governos de corte progressista por toda a região e com certo acenso da luta popular e social na região, é possível afirmar que toda a América do Sul está diante da questão da “mudança de época” como fator fundamental da cena política, ou, em outras palavras, de como transitar do ciclo anterior (neoliberal) para um novo ciclo. Assim, a luta pelas mudanças, em distintos ritmos e gradações, é a marca e a expressão da tendência democrática e progressista, com diversas expressões de antiimperialismo e de contestação da ordem mundial, pela multipolaridade.

Por sua vez, estas são condicionadas por sua contra-tendência, a contra-ofensiva da direita oligárquica e do imperialismo norte-americano na região, expressa em diversos fenômenos em 2007.

A luta pela integração sul-americana registra passos positivos em 2007 – ainda que, em sua velocidade, insuficiente. O Mercosul, núcleo mais desenvolvido da integração, como vimos, já não é mais o mesmo de 1997, mas é pressionado a efetivar de forma mais acelerada a agenda nova dos governos progressistas, cujo centro é a diminuição das assimetrias regionais pela promoção da industrialização, da complementação produtiva e do desenvolvimento econômico. Esse é seu estagio atual.


Três resultados importantes na luta pela integração em 2007

Primeiro, na Cúpula energética sul-americana da Ilha Margarita, em abril – que instituiu a União das Nações Sul-americanas (Unasul) –, a decisão de pôr no centro da integração a questão energética, isto é a convergências das distintas matrizes como base para a superação das assimetrias.

Segundo, a assinatura da ata do Banco do Sul em Buenos Aires nas vésperas da posse da presidente Cristina Fernandez. Todavia por se materializar, a criação do Banco do Sul é um fato de importantes dimensões, efetivamente contrastante com o receituário neoliberal, futuro instrumento para o financiamento da integração sul-americana e base para uma convergência futura das políticas macroeconômicas e de uma moeda única regional.

Terceiro, a efetiva entrada em funcionamento do Parlamento do Mercosul, com sede em Montevidéu, cujas primeiras eleições diretas deverão se dar em 2010.

Visto no plano de cada país, a luta pelas mudanças também é a marca da conjuntura atual. È o caso de Brasil, Argentina, Uruguai, paises liderados por amplas coalizões de centro-esquerda que buscam abandonar o receituário neoliberal, mantendo, no entanto, hibridismo em política econômica. Nos três casos, superávits fiscais e defesa da estabilidade é combinada com certo retorno do protagonismo e da iniciativa do Estado, de forte preocupação com o tema do desenvolvimento (econômico e social).

Dentre outros fatores, na transição econômica, há matizes ou condicionamentos nos três países: dificuldades na execução “acelerada” do PAC no Brasil, em boa parte pelo desmonte do Estado na década neoliberal; Pressão inflacionária na Argentina; Luta interna no governo e na sociedade uruguaia sobre sua forma de inserção internacional (Mercosul x “modelo chileno”).

Na Venezuela, Bolívia e Equador, duas marcas comuns: a tentativa de “refundação do Estado”, através e, sobretudo a partir de Assembléias Constituintes e a proclamação, nos três casos, por sua liderança principal, de objetivos de transição ao socialismo.

Na Venezuela, o recente revés no referendo constitucional, que propunha uma ousada e ampla proposta, limitará, pelo menos por hora, a “velocidade” da revolução bolivariana. As causas da derrota são variadas: vão da alta abstenção na base chavista – menos 3 milhões de eleitores votando, em relação a exatos um ano – até polêmicas quanto a oportunidade tática, o mérito (conteúdo) e a forma de algumas propostas. Os desdobramentos do revés, no entanto, como observaram os comunistas venezuelanos, poderá possibilitar, a depender das conseqüências tiradas – o que cabe, essencialmente, aos revolucionários venezuelanos realizar – realizar ajustes e aprofundar o caminho para o socialismo de século 21, num quadro de crescente contra-ofensiva da reação.

A Bolívia também é objeto de grandes tensões na luta pelas mudanças. Na disjuntiva Constituinte x autonomias regionais estão projetos antagônicos de país, cujo desfecho ameaça a unidade territorial e a estabilidade democrática.

Ponto para o Brasil, que anuncia investimentos de US$ 1 bilhão no país, numa mensagem inequívoca em apoio ao governo das mudanças de Evo Morales – e uma resposta à histeria da direita brasileira (PSDB e Demo), à época da nacionalização do gás (maio de 2005). Nos primeiros meses de 2008, o povo entra em cena para decidir a contenda, em pelo menos quatro votações: sobre a nova Constituição e sobre os estatutos autonômicos, sobre a proposta de limitar os latifúndios e no referendo revogatório do mandato presidencial e dos governadores dos departamentos.

No Equador, que acaba de instalar sua Assembléia Constituinte, não tardarão os conflitos com a oposição oligárquica – por hora reduzida a cinzas pelo povo nas eleições constituintes. Na medida em que se apresentem as proposta de mudanças, inevitavelmente a reação se reagrupará para resistir e travá-las.

O Paraguai elege seu presidente em Abril de 2008. Três atores em cena: o ex-bispo Fernando Lugo, apoiado pela esquerda e por parcelas do centro, como o tradicional PLRA (Liberal); o general Lino Oviedo, autor de tentativa frustrada de golpe em 1996 e recém liberado pela justiça paraguaia, com nítido objetivo de dividir a oposição; finalmente, a ex-ministra da Educação, Blanca Ovelar, do movimento progressista colorado, candidata do atual presidente Nicanor Duarte.

Resta saber o que fará a direita, que perdeu, para Ovelar, as eleições internas do governista Partido Colorado, com Luis Castiglioni, ex-vice de Nicanor e defensor da saída deste país do Mercosul.

No Chile, Colômbia e Peru – os três sul-americanos com TLC’s com os Estados Unidos – também a luta por mudanças é a marca.

No Chile, certo esgotamento do modelo neoliberal de mais de três décadas faz explodir manifestações e greves regulares; a presidente Michele Bachelet, do Partido Socialista, tem dificuldade de avançar numa agenda de democratização do país.

Na Colômbia, Uribe é pressionado para abrandar sua agenda de segurança fascistoide e abrir negociações com as FARC, mas tem deixado claro que prefere a “linha dura”, bem a gosto de Washington. Registre-se a vitória importante do Pólo Democrático Alternativo (PDA), coalizão de centro-esquerda nas recentes eleições municipais.

Finalmente, no Peru, o quadro é marcado mais recentemente pela aprovação do TLC com os EUA e pelo julgamento de Fujimori, também num quadro de crescente luta social e popular.


A Contra-ofensiva põe a cara

Mas 2007 também marcou – e projeta para 2008 -, a reaglutinação da contra-tendência, que põe adiante uma contra-ofensiva que busca condicionar, bloquear ou até destituir as experiências de mudanças em cada uma dos países.

O revés da reforma constitucional na Venezuela e a crise política na Bolívia são os fatores mais salientes dessa contra-ofensiva da direita em combinação com o imperialismo norte-americano e dão pistas de que a luta mudanças x retrocessos se intensificará em 2008.


[Artigo tirado do 'Diário Vermelho' do Brasil, 11 de xaneiro de 2008]

 
 
As opinións vertidas nos artigos de opinión, enviados polos nosos colaboradores ou tiradas doutros meios, non teñen porque ser necesariamente compartidas pola CIG.
 
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