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Santiago, 8 de febreiro de 2008

Crise do crédito imobiliário: Malhas que o capital tece
 

Hugo Janeiro-

Avante!


Se é verdade que o epicentro da crise ocorre nos EUA, não é menos verdade que a economia de casino a globaliza rapidamente. Na Europa, o «contágio» soma quase 40 mil milhões em prejuízos só nos derradeiros três meses do ano transacto, afectando gigantes como os franceses BNP Paribas, Credit Agricole e Société Générale os suíços UBS e Credit Suisse, o alemão Deutsche Bank, e os ingleses HSBC, Barclays, Royal Bank of Scotland (com ligações ao holandês ABN-Amro), e Northern Rock.



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A economia norte-americana está em recessão e já ninguém nega o facto. Desde o Verão, a Federal Reserve (Fed) já baixou a taxa de juro em mais de dois pontos percentuais, cortes sucessivos de resposta à crise do subprime. Ainda assim, o sector imobiliário mantém quedas nos preços entre 5 e 10 por cento, o volume das vendas na habitação desceu para metade e continuam a acumular-se casos de incumprimento no pagamento de hipotecas de crédito de alto risco.
 
Em Davos, Londres e Washington, os governantes e o grande capital procuram estancar a crise do subprime que afunda a economia mundial capitalista, e cujas consequências recairão invariavelmente sobre os povos.

No final do Fórum Económico de Davos, que decorreu durante cinco dias na Suíça e reuniu cerca de 30 chefes de Estado, 110 ministros e centenas de magnatas das mais importantes empresas, os habituais sorrisos triunfantes deram lugar à apreensão face à crise do crédito imobiliário.

O caso não é para menos. Só até Novembro do ano passado, diz a norte-americana Goldman Sachs, os bancos haviam arrecadado perdas próximas dos 400 mil milhões de dólares. De acordo com os dados disponíveis referentes ao último trimestre de 2007, a alta finança continuou a somar perdas que ascendem a mais de 140 mil milhões, sendo obrigada a admitir prejuízos quatro vezes superiores ao esperado.

Na especulação em bolsa, os indicadores também não desmentem a crise. As principais praças caíram 20 por cento face ao ponto máximo de Novembro. O novo ano bateu todos os recordes negativos das três décadas anteriores, e nos EUA e Grã-Bretanha foi mesmo o pior início desde que existem estatísticas sobre a matéria.

Neste contexto, o director do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, sustentou em Davos a necessidade de políticas orçamentais expansionistas. A declaração surpreendeu tudo e todos na medida em que o FMI sempre teve como modelo os cortes no investimento público, com as consequências antipopulares que se conhecem.

A questão, defendeu Strauss-Kahn, é que as políticas cambiais, por si só, já não resolvem o problema, isto apesar de alguns responsáveis europeus indicarem como saída a baixa da taxa de juro por parte do Banco Central, medida que visa injectar dinheiro no mercado, estimular o consumo e travar o pânico nas bolsas.

Mais consensual é a pressão que emanou de Davos quanto à conclusão até Abril das negociações na Organização Mundial do Comércio sobre a liberalização da troca na agricultura e indústria. O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, adiantou mesmo que se em 2007 tal era «uma oportunidade», agora representa «uma necessidade».

Resta saber qual será a reacção dos países considerados em vias desenvolvimento, para quem as condições de Doha são draconianas. As chamadas «economias emergentes» respondem por cerca de dois terços do crescimento mundial e parecem significar para as potências capitalistas uma escapatória imediata para a crise. Só a China e Índia devem crescer em 2008 acima dos 10 por cento.


EUA em recessão

A economia norte-americana está em recessão e já ninguém nega o facto. Desde o Verão, a Federal Reserve (Fed) já baixou a taxa de juro em mais de dois pontos percentuais, cortes sucessivos de resposta à crise do subprime. Ainda assim, o sector imobiliário mantém quedas nos preços entre 5 e 10 por cento, o volume das vendas na habitação desceu para metade e continuam a acumular-se casos de incumprimento no pagamento de hipotecas de crédito de alto risco. Os dados conhecidos dizem que se registou um aumento de 20 por cento neste particular. Dois milhões de norte-americanos estão nessa situação.

George W. Bush confirmou no discurso à nação que a sua administração tem em marcha um pacote de benefícios fiscais na ordem dos 150 mil milhões de dólares. O objectivo é auxiliar os bancos norte-americanos que apresentam resultados negativos devido à perda de valor dos seus activos de dívida, comprados na presunção da subida dos preços no mercado imobiliário. O facto é que o montante parece irrisório face à dimensão do «monstro», bem maior que há 20 anos, quando a Casa Branca teve que intervir para travar a crise nas instituições bancárias.

Para além do sector financeiro, outros apresentam prejuízos. Os gigantes automóveis e as empresas de novas tecnologias admitem perdas até 10 por cento. Nem o período das festas natalícias resgatou o país da crise, e o consumo andou perto dos níveis de 2006.

Entretanto, as autoridades federais intimaram a Morgan Stanley e a Goldman Sachs a revelar todas as informações referentes ao subprime, as quais, até agora, os bancos ocultavam dos respectivos balanços. Outras entidades envolvidas na crise como a Merrill Lynch ou Bear Stearns podem seguir-se.


Inglaterra e Europa contagiadas

Se é verdade que o epicentro da crise ocorre nos EUA, não é menos verdade que a economia de casino a globaliza rapidamente.

Na Europa, o «contágio» soma quase 40 mil milhões em prejuízos só nos derradeiros três meses do ano transacto, afectando gigantes como os franceses BNP Paribas, Credit Agricole e Société Générale – este banco ainda envolto num escândalo de «burla» orçado em 5 mil milhões de euros, mas cujos contornos são muito pouco claros – os suíços UBS e Credit Suisse, o alemão Deutsche Bank, e os ingleses HSBC, Barclays, Royal Bank of Scotland (com ligações ao holandês ABN-Amro), e Northern Rock.

A preocupação é tão grande que o primeiro-ministro Gordon Brown chamou os homólogos francês, Sarkozy, e alemão, Merkel, para uma cimeira restrita. A estes juntaram-se à última hora o actual e o ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso e Romano Prodi.

O Banco de Inglaterra e o BCE já injectaram 500 mil milhões de dólares no sistema financeiro, mas nem isso resolveu o problema. Assim, constataram os governantes, exigem-se normas que obriguem os bancos a fornecer detalhes sobre os riscos não associados aos respectivos balanços, regulação e transparência que, segundo Brown, pode muito bem passar a ser da competência do FMI.

O homem que foi ministro das Finanças de Tony Blair na última década é justificadamente o mais empenhado em «domar» a crise. A Grã-Bretanha é entre os países do G8 o mais dependente do sector financeiro. Anos de moeda forte estrangularam as exportações e levaram a economia inglesa a viver à custa dos investimentos em propriedades, com consequente valorização do sector imobiliário, e de operações de compra e venda de acções, as quais consolidaram Londres como um dos mais importantes centros financeiros mundiais.

Acresce que Downing Street tem que resolver o problema de um dos maiores bancos do país, o Northern Rock, à beira da bancarrota desde Setembro, obrigando à intervenção de emergência do Tesouro Britânico e do Banco de Inglaterra, a quem a instituição deve qualquer coisa como 35 mil milhões de euros.

Gordon Brown pediu à financeira Goldman Sachs concelhos para a resolução da crise no Northern Rock. O banco norte-americano apontou uma pequena janela de oportunidade de venda logo aproveitada pela Virgin, de Richard Branson, e a Olivant, do ex-patrão do banco Abbey, Luqman Arnold, mas estes mostram-se todavia relutantes.

Caso o plano não surta efeito, Brown nacionaliza o Northern Rock, isto é, assume com o dinheiro dos contribuintes a solução dos prejuízos, e, posteriormente, recoloca o banco no sector privado, fórmula a que o capital já habituou os povos de todo o mundo, os invariáveis pagadores da factura das crises do sistema.


Subprime: Especulação à solta

Nos últimos seis meses, a palavra subprime tem sido repetidamente ouvida em notícias e rubricas televisivas dedicadas à análise da situação económica actual. Mas afinal, o que é o subprime?

Muito sumariamente, a expressão de que tanto ouvimos falar está associada ao crédito à habitação de alto risco, isto é, empréstimos para a aquisição de casa própria a uma taxa e prestações inicialmente baixas tendo como única garantia a hipoteca do imóvel.

Em Portugal e na generalidade dos países da Europa, este tipo de empréstimo é sobretudo destinado ao consumo de automóveis, férias, computadores, de que servem de exemplo as empresas de crédito por telefone Mediatis, Cofidis, Cetelem, Credial e outras de configuração semelhante.


Crescimento e ascensão do «monstro»

Depois do crash na bolsa de valores Nasdaq (2000-2001), a Reserva Federal norte-americana (Fed) decidiu baixar a taxa de juro de referência com o objectivo de injectar dinheiro no mercado, afectado por rombos consideráveis no sector das chamadas novas tecnologias.

Em 2003, perante o tímido crescimento económico, a Fed voltou a descer o preço do dinheiro estimulando as instituições bancárias a serem menos exigentes na concessão de crédito imobiliário. Famílias com baixos rendimentos foram atraídas para a aquisição de casa.

A procura de imóveis espicaçou o sector da construção que inundou o mercado com mais e mais oferta. Os bancos norte-americanos emprestaram avultadas somas no pressuposto da valorização das propriedades e somaram lucros através da especulação em bolsa. Muitas instituições financeiras europeias investiram no negócio do subprime que corria livre do outro lado do Atlântico. Quando a Fed decidiu subir as taxas de juro, as famílias com fracas remunerações que tinham contraído empréstimos viram-se na incapacidade de saldar a dívida.

A partir de Agosto de 2007, o valor da propriedade imobiliária caiu arrastando consigo a construção civil, a banca, os fundos de investimento e demais instituições financeiras.


[Artigo tirado do xornal 'Avante!', número 1.784, 7 de febreiro de 2008]

 
 
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