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Santiago, 5 de febreiro de 2008

E a Alemanha disse não...
 

Flávio Aguiar-

Agência Carta Maior


Repercute Europa à fora a rusga entre o governo norte-americano e o governo alemão em torno do Afeganistão. A situação é crítica, em mais este fracasso ou impasse da política do Big Stick (Grande Porrete) que Theodor Roosevelt apregoou e usou com sucesso no Caribe no começo do século XX e agora Bush quis usar em escala mundial, sem obter os mesmos resultados.



  Soldados ianquis en Afganistán; clic para aumentar
O governo alemão rejeitou o pedido de Gates, dizendo que a decisão do parlamento sobre o mandato das tropas não estava em discussão. A decisão provocou reações negativas dentro da OTAN. Os noruegueses ameaçam retirar seus soldados das zonas de combate caso não recebam mais reforços da OTAN. O Canadá, que também pressionara a Alemanha para mudar sua posição, também manifestou seu descontentamento.
 
A OTAN mantém dezenas de milhares de soldados no Afeganistão numa situação que pode ser descrita como de confinamento. O “controle”que essas tropas – na maioria dos Estados Unidos, cujo contingente passa dos 25 mil soldados e agora receberá um reforço de mais 3.500 militares – têm sobre o território é mínimo e precário. Em geral ele não passa dos limites dos quartéis fortemente armados que, é claro, são bem equipados para resistir a possíveis ataques, ou se limita à guarda de comboios com armamentos e outros suprimentos que viajam pelo país. No restante, impera o Talebã ou o estado de “terra de ninguém”, ou por outra, “de todo mundo”, percorrida por bandos armados que nada têm de revolucionários ou de milicianos. Na prática, esta foi a “democracia” que os Estados Unidos e a OTAN levaram ao Afeganistão, depois de atacarem o Talebã que eles mesmos tinham insuflado para combater os soviéticos.

O principal refúgio das tropas da OTAN está no norte do país. O sul é considerado uma “zona conflagrada”, e ali o controle do Talebã é maior. Ali se engaja a maioria dos combates. E os Estados Unidos e a OTAN estão reclamando da falta de apoio dos alemães nesta região.

A Alemanha mantém 3.340 militares no Afeganistão, todos no norte do país. Essa presença é controvertida e contestada na Alemanha, cuja imprensa reportou casos de desmandos, alcoolismo e outras drogas, além de suspeitas de corrupção. Mas o mandato dado pelo Parlamento de Berlim é claro: trata-se de forças que devem operar em “questões de segurança”, e que não devem tomar a iniciativa em combates. Na prática isso quer dizer que as tropas germânicas só podem agir, em campo aberto, em caso de legítima defesa.

Nesta semana o Secretário de Defesa norte-americano, Robert Gates, enviou uma carta ao seu colega alemão Franz Josef Jung, pedindo o envio de mais tropas e maior engajamento nas frentes de combate. A carta, de 8 páginas, provocou constrangimentos e reações adversas dentro do governo de Berlim, pois, além de se confrontar uma determinação parlamentar do país, chegou em momento difícil em que o partido da democracia cristã, CDU, tenta se recompor da queda que sofreu nas eleições do importante estado de Hessen. O próprio Jung se viu forçado a se engajar na batalha de Hessen onde estava em jogo o destino de seu correligionário e amigo, Roland Koch, líder da facção mais conservadora do CDU.

O resultado foi que o governo alemão rejeitou o pedido de Gates, dizendo que a decisão do parlamento sobre o mandato das tropas não estava em discussão. A decisão provocou reações negativas dentro da OTAN. Os noruegueses ameaçam retirar seus soldados das zonas de combate caso não recebam mais reforços da OTAN. O Canadá, que também pressionara a Alemanha para mudar sua posição, também manifestou seu descontentamento.

Do ponto de vista estratégico a decisão alemã é um golpe para a OTAN, não só no que se refere ao Afeganistão, mas porque esse “desalinho” abala a política da Organização de manter e reforçar o “cordão de cerco” que existe claramente diante da Rússia. Este “cordão de cerco” é tanto militar como político, e o papel da Alemanha sobretudo na frente política continua sendo vital para os Estados Unidos. Nada pior para a política de controle mundial desse novo “Grande Porrete” do que uma Alemanha demasiadamente próxima da Rússia, assim como também não interessa um confronto aberto entre os dois velhos inimigos, o que traria forte instabilidade para a Europa inteira.

Agora resta saber, no futuro próximo, o que dirão Barack Obama, Hillary Clinton e John Mcain diante desse novo impasse da política da superpotência, que se comporta como um “hegemon”, mas que tem cada vez menos hegemonia dom ponto de vista político, o que é vital para assegurar a hegemonia militar de que dispõe. De Bush, já se sabe o que vai se ouvir, e Bush, ainda no poder, é claro, é hoje uma estrela cadente na constelação mundial.


[Artigo tirado do sitio web de 'Agência Carta Maior',
1 de febreiro de 2008]

 
 
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