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10/8/2010
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A ofensiva do populismo de direita na Europa

Hungria, Holanda e Bélgica são casos exemplares de tendências atuais em movimento no cenário político europeu. Tendo como pano de fundo a insatisfação com as consequências da crise econômica e financeira, e a falta de propostas consistentes dos partidos burgueses e social-democratas, surgem movimentos de direita com seus líderes carismáticos e com estratégias de salvação que prometem uma saída via uma política racista de exclusão social, encontrando respaldo em setores da sociedade inseguros quanto ao futuro.

Nas eleições de início de junho na Holanda, o “Partido para a liberdade“ do populista de direita Wilders tornou-se a terceira força política no país. Também o partido da direita liberal VVD saiu como vencedor nas votações. O VVD é tanto pelo seu programa, quanto nas suas ações públicas fortemente influenciado pelo populismo de direita. Em conjunto, esse bloco direitista recebeu 36% do total de votos.

Na verdade, a (re-)ascensão da direita populista na Holanda não é um caso isolado. Em muitos países europeus, tendo como pano de fundo a grande crise e a desorientação dos partidos burgueses e social-democratas, ocorre uma transformação das estruturas políticas tradicionais, uma fragmentação na formação da vontade política pública e um fortalecimento da política de exclusão social influenciada pelo ressentimento.

Isso revela-se não apenas nas mudanças políticas no leste da Europa. Como no caso do dramático deslocamento para a direita ocorrido na Hungria nas últimas eleições parlamentares, nas quais a socialdemocracia, que até então governava, perdeu mais da metade de seus votos e , junto com a esquerda, resvalou para uma posição política marginal. O vencedor foi o partido conservador de direita Fidez - “Aliança dos jovens democratas“ -, que com 52,7% dos votos conseguiu mais de dois terços dos mandatos em disputa. A terceira força política, com 16,7% da votação, é o partido Jobbik - “Comunidade dos jovens justos – Movimento por uma Hungria melhor“ -, com uma plataforma abertamente anti-semita e contra a minoria cigana Rom. Como revelam vários estudos, como quase não há emigração nos países do leste europeu, a agressão conservadora se volta contra as próprias minorias, sobretudo os ciganos, os judeus – especialmente na Hungria, Sérvia e Eslovaquia-, e também os homosexuais.

O Jobbik aproveita-se não apenas das consequências da crise atual, como da massiva privatização de empresas públicas e de parte do sistema de seguridade social, que abriu um vasto campo para a corrupção e a política clientelista. Esses fatores somados geram insegurança em grande parte da população, que tampouco confia na capacidade da elite política em encontrar respostas para os problemas econômicos e sociais em constante agravamento.

Na Itália, os populistas de direita já estão no poder há tempos; na Austria, eles contam com mais de 30% de aprovação nas sondagens realizadas; e na França, após anos de querelas internas, a Frente Nacional passa por uma fase de crescimento.

O caso Holanda

A sociedade holandesa penetra cada vez mais em uma espiral de crise econômica e social, no interior da qual a população não enxerga saída. O grande perdedor das últims eleições foram os democrata-cristãos, que tiveram 13% a menos da votação anterior e quase a metade de seus mandatos. Os socialistas perderam 6,7% de seus votos e 10 dos 25 mandatos que tinham. A direita liberal, VVD, prometeu durante a campanha colocar o orçamento do governo em ordem através da redução de seus gastos – incluindo a diminuição dos servidores públicos, a elevação da idade para aposentadoria de 65 para 67 anos, e cortes nos programas de assistência social. Por outro lado, quer abolir o imposto sobre herança.

Já o “partido“ de Wilders tem os clássicos ingredientes do populismo direitista. Trata-se na verdade de um movimento que tem à sua frente um líder carismático, e com um forte componente de autoritarismo dirigido contra os proclamados inimigos – entre eles os emigrantes. Segundo suas próprias palavras: “o islamismo é uma ideologia totalitária, tal como o comunismo e o fascismo. O islã não é uma religião, é uma ideologia; por isso, não pode beneficiar-se da liberdade religiosa.“ O seu “programa“ contra a crise é marcado por um discurso de exclusão social que responsabiliza o Estado sobretudo pelos gastos estatais com os desempregados, os bairros com maioria de emigrantes, o sistema de saúde, etc. E segundo ele, a criminalidade é cada vez mais associada à juventude oriunda de famílias estrangeiras e carentes. Tudo isso indica que, no curso da crise, aproximam-se novas confrontações sociais e políticas relacionadas com a redistribuição de seu ônus.

Bélgica: separatismo

A Bélgica tem uma longa tradição de surrealismo. Mas por trás da disputa entre Flandres e Valonia está a questão sobre como os custos da crise serão repartidos entre essas duas regiões. Já antes do fim do governo anterior, os jornais belgas escreviam: „A nossa sociedade está em perigo“. Entre 2004 e 2007, o crescimento médio do país foi de mais de 2,5% ao ano. Em 2008, atingiu apenas 1%; já em 2009 teve uma redução de 3,1% - coisa que não acontecia desde o final de Segunda Guerra Mundial.

Apenas com a ajuda aos bancos, o governo gastou 15 bilhões de euros. A isso, somam-se os gastos com um sistema de assistência social já enfraquecido. O número de desempregados cresce: em Flandres, em dezembro de 2009, aumentou em quase 24%; e em janeiro, mais 15%. Em fevereiro de 2010, o total de desempregados era 12% maior que no mesmo período do ano anterior.

Mesmo sendo o voto obrigatório na Bélgica, o percentual de não votantes subiu em 2% nas últimas eleições, e o número de votos inválidos em 5,8%.. Com a erosão da base de apoio da democracia-cristã, uma nova organização da direita populista entrou em cena, a NVA - “Nova Aliança pela Valonia“ - que obteve 17,4% dos votos nas recentes eleições parlamentares. Mas a direita como um todo obteve cerca de 28% dos votos em todo o país; e em Flandres quase a sua metade. Enquanto a direita cresce, a esquerda práticamente não desempenha papel algum: uma aliança de seis pequenas organizações – “Front de gauche“ – obteve 0,2% dos votos; o Partido Operário Belga, 0,3%

O que fazer ?

Hungria, Holanda e Bélgica são casos exemplares de tendências atuais em movimento no cenário político europeu. Tendo como pano de fundo a insatisfação com as consequências da crise econômica e financeira, e a falta de propostas consistentes dos partidos burgueses e social-democratas, surgem movimentos de direita com seus líderes carismáticos e com estratégias de salvação que prometem uma saída via uma política racista de exclusão social, encontrando respaldo em setores da sociedade inseguros quanto ao futuro.

Até agora, a esquerda não conseguiu ainda apresentar claramente as suas alternativas para se contrapor a essas perigosas tendências. Em muitos países, ela se encontra marginalizada ou dividida. Por isso, o desafio para a esqueda européia é o de testar e precisar as suas propostas e as suas estratégias políticas.

 

[Artigo tirado do sitio web ‘Vermelho’, do 8 de agosto de 2010]

cig.prensa@galizacig.com