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13/3/2008
Xornalista e historiador arxentino. É membro do Consello de Redacción da revista electróncia SinPermiso.
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Uribe e as guerras preventivas

A crise iniciada na semana passada entre o Equador e a Colômbia –que parece ter chegado a uma trégua depois da reunião de cúpula do Grupo do Rio, realizada em Santo Domingo– foi uma rápida olhada retrospectiva em um velho filme da Guerra Fria.

Para aqueles que aceitaram de modo acrítico a fábula pós-moderna do fim dos Estados e dos conflitos que marcaram o século passado, a surpresa foi tão grande quanto para aqueles que pensavam que o governo de George W. Bush, enfrentando um impasse no Iraque e no Afeganistão, não estava presente no dia-a-dia do seu antigo "quintal dos fundos".

A violação do território equatoriano por uma patrulha colombiana nos lembrou imediatamente a impunidade com que, por meio do Plano Condor, as ditaduras do Cone Sul realizavam seqüestros, roubos e assassinatos, passando de um país para outro sem maiores problemas. Há uma extensa literatura sobre o tema e sobre a maneira em que estes "grupos de tarefas" foram educados pela CIA e pela Escola das Américas.

Todos esses "protocolos", a prática dos quais consiste em violações aberrantes dos direitos humanos e em crimes de lesa humanidade, foram atualizados pela atual administração norte-americana com o uso de modernas tecnologias, depois do 11 de setembro de 2001. Bush acaba de vetar uma lei que proibia a aplicação de tortura a prisioneiros (supostos terroristas), uma iniciativa legislativa que votaram democratas e republicanos e que, inclusive, teve o apoio de alguns funcionários da CIA.

No caso da América Latina a justificativa destas ações de "guerra infinita" ou de "guerra preventiva" vem de longe, muito mais longe que os tempos da ameaça "comunista" da Guerra Fria. José Luis Fiori vem nos lembrando, nestas colunas, a origem e o curso que foram tomando as relações dos Estados Unidos com a região a partir da formulação da Doutrina Monroe, alicerce da posterior estratégia geopolítica de Washington.

As ações de Álvaro Uribe constituem uma atualização desses métodos e mesmo da retórica do Departamento de Estado.

Segundo fontes equatorianas oficiais, para detectar e eliminar Raúl Reyes, foi utilizado um míssil que segue, por sinal de satélite, a freqüência do telefone celular. Uma tecnologia norte-americana que foi passada para Israel, para ajudar a executar sem julgamento prévio qualquer um que eles queiram qualificar como "terrorista" ou "indesejável". Ao mesmo tempo, aviões colombianos e helicópteros artilheiros bombardeiam, de noite, no território de outro país, um suposto acampamento de terroristas, que foram mortos enquanto dormiam. Entre eles estava Reyes, mas também estudantes de outros países, sobre os quais não existem provas de que estivessem nas FARC. E como esses há numerosos exemplos. Todos confirmados pelas únicas autoridades legítimas, as equatorianas, na jurisdição onde ocorreram os fatos, e que podem ser rotulados como ações ilegais, violatórias do direito internacional e dos direitos humanos.

Qual é o argumento de Uribe? Agimos "em legítima defesa". As mesmas palavras, "agimos em legítima defesa", que usava Ronald Reagan para justificar o financiamento e cobertura dada pelos Estados Unidos para a formação de um exército clandestino para atacar a Nicarágua nos anos 80. Reagan chamava os "contras" –que foram financiados, em aberta violação das próprias leis norte-americanas, traficando com armas e drogas– de "combatentes pela liberdade".

"Os Estados Unidos têm o direito de operar clandestinamente em qualquer lugar do mundo e de espiar em países amigos", afirmou William Colby, diretor da CIA, em 1976, diante de parlamentares da oposição e organismos de Direitos Humanos que investigavam o golpe militar no Chile.

Ou seja, a luta contra o "império do mal" não é uma frase de Bush; é uma velha consigna da "Nova direita" norte-americana, faz parte da sua história. Basta repassar por um momento os documentos públicos da Heritage Fundation ou do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais da Universidade de Georgetown, em Washington, entre outras instituições promotoras dos conservadores norte-americanos.

A Colômbia, é claro, cai como anel no dedo para a elaboração destas políticas. Um território que vive há mais de meio século em um clima de violência que se retroalimenta, ao mesmo tempo que, para a geopolítica do Departamento de Estado, faz parte do seu mar interior, junto com a Venezuela e os países do Caribe.

Ao acompanhar com detalhe todas as tentativas de paz, durante todos esses anos, nota-se sem muito esforço que a classe dirigente colombiana está em simbiose com a guerra. Vive com e da guerra. Passou todas as crises e recessões, que fizeram tremer o continente, sem grandes sobressaltos. O narcotráfico e a "assistência" militar constituem ótimas bóias ou alimentadores de bolhas financeiras e especulativas.

A Associação Nacional de Instituições Financeiras (ANIF) em seu relatório anual prognosticava um bom ano econômico para 2001. Admitia, contudo, que tinham sido registrados, no ano anterior, 26.540 homicídios e 3.306 seqüestros, a maior taxa de mortos por violência do mundo. Isso não foi um problema para que a Colômbia fosse um dos maiores receptadores de investimentos diretos norte-americanos, nessa época e em todos os anos seguintes.

É uma certeza que ninguém pode se acostumar a viver eternamente entre estes entulhos, e vem dai que a sociedade colombiana esteja farta de violência. Ainda que, curiosamente, algumas sondagens mostram que o belicismo ajuda à imagem de Uribe e, ao mesmo tempo, ele perde para a esquerda nas eleições municipais.

Desde o início das negociações para a libertação dos reféns, no fim do ano passado, Uribe e a classe dirigente colombiana advertiram que esse não era um bom caminho para eles. O governo dos Estados Unidos também não gosta do protagonismo de Hugo Chávez e do resto dos mandatários "populistas" em um futuro processo de pacificação da Colômbia.

As acusações dos familiares dos reféns e da diplomacia francesa contra Uribe são contundentes. Asseguram que Uribe está boicotando as ações humanitárias. Pesam mais os 600 milhões (declarados) de assistência militar norte-americana, os interesses corporativos do exército melhor armado da América Latina, os diversos grupos parapoliciais e paramilitares, os narcotraficantes e as FARC, todos atores de uma lógica de guerra.

A história da Colômbia nas últimas décadas está atravessada por numerosas pantomimas de trégua e de projetos de pacificação que terminaram em verdadeiros massacres. Não só para aqueles que haviam deposto as armas, mas para milhares e milhares de dirigentes e lutadores sociais. Existem milhões de "deslocados", todos vítimas desta guerra civil latente.

Mas vejamos; para além das desculpas apresentadas por Uribe ao Grupo do Rio, tudo indica que ele vai persistir na saída "militar", bem respaldado por políticos e empresários colombianos, a maioria deles recebendo do narcotráfico ou da narcolavagem, que às vezes têm diferentes operadores. Os segundos se consideram como os mais limpinhos do negócio.

Pelo contrário, o caminho da paz teria que ser o objetivo fundamental dos governos progressistas da América Latina, fazendo causa comum com o povo colombiano.

Para os falcões de todos os tempos vale o que lembrava Alejandro Nadal a propósito dos 40 anos da ofensiva do Tet. E não só no Vietnã, mas também na Argélia acreditavam em uma solução militar; e quando nos gabinetes militares davam a guerra como ganha para o exército colonial francês, tudo veio abaixo. Senhores: é a política, ou melhor, é a economia política, no sentido clássico.

Bismarck teve uma brilhante idéia referente a "uma guerra preventiva". Disse que era como o suicídio, que se comete com a única finalidade de prevenir a morte.

Essas palavras iam dirigidas à classe dominante alemã da época, que como mais tarde demonstraria Guilherme II, o imperador da Alemanha, ficou entusiasmada nos albores do século XX com a idéia de uma "guerra preventiva". Uma classe dirigente que não escutou o bom conselho e foi parar na lixeira da história.

Uma lição oportuna também para Uribe e para seus amigos de Washington e Londres, que vão ganhando a guerra preventiva no Iraque e no Afeganistão.

cig.prensa@galizacig.com