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14/2/2011

Nado en Coimbra (Portugal) en 1940, é licenciado en Dereito e doutor en Socioloxía do Dereito. A súa traxectoria intelectual está moi ligada ao Brasil. Participou como conferenciante nas edicións de 2001, 2002 e 2003 do Foro Social Mundial, que se celebraron Porto Alegre, no Brasil. É autor de numerosos artigos científicos e de varios libros. Actualmente é Catedrático da Facultade de Economía de Coimbra e profesor visitante da Universidade de Winsconsin-Madison, da London School of Economics, da Universidade de São Paulo e da Universidade de Los Andes. Desde 1978 é Director do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra e do Centro de Documentação 25 de Abril, da mesma institución. É tamén director da Revista Crítica de Ciencias Sociais.

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Poderá o Ocidente aprender?

Vista do Fórum Social Mundial, a crise do Norte de África significa o colapso da segunda fronteira da Europa desenvolvida. A primeira é constituída pela Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. Com as duas fronteiras em crise, o centro torna-se frágil.

 Está a realizar-se em Dakar o XI Fórum Social Mundial (FSM). É a segunda vez que se reúne em África (a primeira foi em 2007, em Nairobi), o que revela o interesse dos seus organizadores em chamar a atenção para os problemas africanos e para o impacto que eles terão no mundo. Mal podiam supor que, ao tempo da realização do Fórum, o Norte de África estivesse no centro dos noticiários mundiais e os protestos sociais contra a crise económica e as ditaduras apoiadas pelo Ocidente fossem tão vigorosos, tão contagiantes e tão assentes num dos princípios básicos do FSM, o da radicalização da democracia como instrumento de transformação social.

 A solidariedade do FSM com as lutas sociais no Norte de África tem raízes e razões que escapam aos media ocidentais ou que estes abordam em termos que revelam a dupla dificuldade do Ocidente de aprender com as experiências do mundo e de ser fiel aos princípios e valores de que se diz guardião. O FSM tem vindo a alertar, desde a sua criação, para a insustentabilidade económica, social, política, energética e ambiental do actual modelo económico neoliberal, dominado pelo capital financeiro desregulado, e para o facto de os custos mundiais daqui decorrentes não se confinarem aos países menos desenvolvidos.

 A agitação social no Norte de África tem uma das suas raízes na profunda crise económica que a região atravessa. Os protestos sociais das últimas semanas no Egipto não se podem compreender sem as greves no sector têxtil dos últimos três anos, as quais, apesar de violentamente reprimidas, não mereceram a atenção mediática ocidental. Dez anos depois de o FSM ter alertado para a situação, o Fórum Económico Mundial (FEM), reunido há semanas em Davos, veio declarar que o agravamento das desigualdades sociais é o risco mais grave (mais grave que o risco da degradação ambiental) que o mundo corre nas próximas décadas. O que o FEM não diz é que tal risco decorre das políticas económicas que ele defendeu, ao longo de toda a década. Como um bom clube de ricos, pode ter assomos de má consciência, mas não pode pôr em causa a sua escandalosa acumulação de riqueza.

 Vista do FSM, a crise do Norte de África significa o colapso da segunda fronteira da Europa desenvolvida. A primeira é constituída pela Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. Com as duas fronteiras em crise, o centro torna-se frágil e o "material" do eixo franco-alemão pode passar em breve do aço ao plástico. Mais profundamente, a História mostra que a estabilidade e a prosperidade da Europa começa e acaba no Mediterrâneo. Porque é que o Ocidente (Europa e América do Norte) não aprende com a História e os factos? Para o FSM, o Ocidente só aprenderá quando o que se passa nas periferias se parecer demasiado com o que se passa no centro. Talvez não tarde muito, e o problema é que pode ser então demasiado tarde para aprender.

 A solidariedade do FSM com o Norte de África tem uma outra raiz: o respeito incondicional pela sua aspiração democrática. Neste domínio, a hipocrisia do Ocidente não tem limites. O seu objectivo é garantir a transição pacífica de uma ditadura pró-americana, pró-israelita, a favor da ocupação colonial da Palestina por parte de Israel, anti-iraniana, a favor da livre circulação do petróleo, pró-bloqueio à faixa de Gaza, anti-Hamas, a favor da divisão Fatah/Hamas para uma democracia com as mesmas características. Só assim se explica a obsessão em detectar fundamentalistas nos protestos e em falsificar a natureza política e social da Irmandade Islâmica. Os interesses de Israel e do petróleo não permitirão ao Ocidente ser alguma vez coerente nesta região do mundo com os princípios que proclama. Não aprendeu com os 100 mil mortos que resultaram da anulação (a que deu entusiástico apoio) da vitória democrática da Frente de Salvação Islâmica, nas eleições da Argélia, em 1991. Nem aprendeu com a conversão da faixa de Gaza no mais repugnante campo de concentração, em resultado do não reconhecimento da vitória eleitoral do Hamas, em 2006. Será que o Ocidente só aprenderá quando for pós-ocidental?

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 13 de febreiro de 2011]

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