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15/6/2012

Sociólogo e científico social histórico estadounidense, nado en Nova York en 1930. De filiación marxista, ntre as súas achegas está a teoría do sistema-mundo. Foi profesor de socioloxía na Universidade de Binghamton até a súa xubilación en 1999, así como director do Centro Fernand Braudel para os estudos económicos, sistemas históricos e civilización. Na actualidade, escribe os seus comentarios quincenais no sitio web do Fernand Braudel Center.

Entre os seus numerosos libros pódense salientar: The Modern World-System (vol. 1, 2 e 3), Historical Capitalism (1983), The Politics of the World-Economy. The States, the Movements and the Civilizations (1984), Geopolitics and Geoculture: Essays on the Changing World-System (1991), After Liberalism (1995), Decline of American Power: The U.S. in a Chaotic World (2003) ou European Universalism: The Rhetoric of Power (2006).

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Luta de classes no mundo: a geografia do protesto

Quando os tempos são bons, e a economia-mundo se expande em termos de nova mais-valia produzida, a luta de classes fica calada. Nunca desaparece, mas desde que haja um baixo nível de desemprego e os rendimentos dos extratos mais baixos estejam a crescer, mesmo que pouco, o que está na ordem do dia é o compromisso social.

 Mas quando a economia-mundo estagna e o desemprego real se expande consideravelmente, o bolo reduz-se. Nessa altura, a questão passa a ser quem suporta o peso da redução – dentro dos países e entre os países. A luta de classes torna-se aguda e mais cedo ou mais tarde leva a um conflito aberto nas ruas. É isto que tem acontecido no sistema-mundo desde os anos 70, e mais dramaticamente desde 2007. Até agora, o extrato mais alto (os 1%) têm garantido a sua parte, na verdade aumentando-a. Isto significa necessariamente que a parte os 99% tem decrescido.

 A luta pelos rendimentos dá-se principalmente em torno de dois itens no orçamento global: impostos (quanto, e quem) e a rede de segurança da maioria da população (gastos com a educação, saúde, garantias de rendimento para o resto da vida). Não há país no qual esta luta não tenha ocorrido. Mas explode mais violentamente nalguns países do que noutros – devido à sua localização na economia-mundo, à sua demografia interna, à sua história política.

 Uma luta de classes aguda levanta a questão de como lidar politicamente com ela. Os grupos do poder podem reprimir duramente o descontentamento, e muitos o fazem. Ou, se o descontentamento for muito forte para os seus mecanismos repressivos, podem tentar cooptar os que protestam dando a aparência de os apoiarem e limitando assim as mudanças reais. Ou fazem ambas as coisas, tentando primeiro reprimir e depois cooptar, se a repressão fracassar.

 Os que protestam também enfrentam um dilema. Os manifestantes sempre começam como um grupo relativamente pequeno e corajoso. Precisam persuadir um grupo muito maior (e politicamente mais tímido) a juntar-se-lhes, se quiserem pressionar os grupos no poder. Isto não é fácil, mas pode acontecer. Aconteceu no Egito na Praça Tahrir em 2011. Aconteceu no movimento Occupy nos Estados Unidos e no Canadá. Aconteceu na Grécia nas últimas eleições. Aconteceu no Chile nas novas e prolongadas greves estudantis. E, de momento, parece estar a acontecer espetacularmente no Québec.

 Mas, se acontece, que ocorre depois? Há alguns manifestantes que querem expandir as reivindicações inicialmente restritas para outras mais amplas e fundamentais, para reconstruir a ordem social. E há outros, há sempre outros que estão prontos a sentarem-se com os grupos no poder e negociar algum tipo de compromisso.

 Quando os grupos no poder reprimem, na maior parte das vezes atiçam as chamas do protesto. Mas a repressão é muitas vezes eficaz. Quando não resulta e os grupos no poder cooptam e tentam fazer compromissos, muitas vezes conseguem desmontar os protestos. Foi isto que parece ter acontecido no Egito. As recentes eleições estão a levar a um segundo turno entre dois candidatos, nenhum dos quais apoiou a revolução na Praça Tahrir – um, o último primeiro-ministro do derrubado presidente Hosni Mubarak, o outro um líder da Irmandade Muçulmana cujo principal objetivo é instituir a sharia na lei egípcia e não a implementação das reivindicações dos que estavam na Praça Tahrir. O resultado é uma escolha cruel para os cerca de 50% que não votaram na primeira volta por nenhum dos dois, na maior pluralidade de voto. Esta situação infeliz resultou do facto de os eleitores pró-Praça Tahrir se terem dividido entre dois candidatos de diferentes trajetórias.

 Que devemos pensar de tudo isto? Parece haver uma rápida e sempre mutante geografia do protesto. Aparece aqui e e depois ou é reprimida, ou cooptada, ou exaurida. E logo que isso acontece, surge novamente noutro lado, onde, por seu lado, pode ser reprimida, cooptada ou exaurir-se. E aparece então num terceiro lugar, como se fosse irreprimível à escala mundial.

 Na verdade, é irreprimível por uma simples razão. O aperto do rendimento mundial é real, e não está perto de desaparecer. A crise estrutural da economia-mundo capitalista está a demonstrar que as soluções padrão para as recessões económicas não podem funcionar, por mais que os nossos especialistas e políticos assegurem que um novo período de prosperidade está no horizonte.

 Vivemos numa situação mundial caótica. As flutuações são grandes e rápidas por todo o lado. Isto também se aplica aos protestos sociais. É o que observamos com as constantes mudanças na geografia dos protestos. Praça Tahrir no Cairo ontem, marchas de massas não autorizadas a bater panelas em Montreal hoje, algum outro (provavelmente a surpreender) amanhã.

 

[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 14 de xuño de 2012]

cig.prensa@galizacig.com