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20/10/2009

Xornalista e columnista americana, é autora de Sen Logo: A tiranía das marcas nun planeta vendido (No Logo: Taking Aim at the Brand Bullies), traducido a 25 linguas. É unha das intelectuais de referencia do movemento altermundista.

Chuza Menéame del.icio.us
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A má influência de Obama

De todas as explicações para o Prêmio Nobel da Paz de Barack Obama, a que mais se aproxima da verdade veio do presidente francês Nicolas Sarkozy. "[O prêmio] sela a volta dos EUA ao coração dos povos do mundo." Em outras palavras, foi o modo de a Europa dizer aos EUA, "Voltamos a amar vocês" – uma espécie daquelas estranhas cerimônias de "renovação de votos", que alguns casais organizam quando sobrevivem a briga feia.

Agora que Europa e EUA estão novamente oficialmente casados, é hora de perguntar: e a reunião terá sido boa coisa? O Comitê Nobel, que atribuiu o prêmio a Obama, oficialmente, por ter abraçado uma "diplomacia multilateral", está evidentemente persuadido de que o engajamento dos EUA no palco mundial implicaria um triunfo da paz e da justiça. Pessoalmente, não tenho muita certeza disso.

Depois de nove meses de governo, Obama já acumula uma sequência bem pouco recomendável de movimentos como ator global. Inúmeras vezes os negociadores norte-americanos escolheram a via oposta às leis e protocolos internacionais, sempre na direção de enfraquecê-los, como fizeram outros líderes de outros países ricos, todos empenhados na corrida para o fundo do poço.

Comecemos pela questão mais crucial: a mudança climática. Durante os anos Bush, os políticos europeus distinguiam-se dos norte-americanos porque manifestavam apoio decidido ao Protocolo de Quioto. Assim, enquanto os EUA aumentavam em 20% suas emissões de carbono a partir dos índices de 1990, os países da União Europeia reduziram suas emissões em 2%. Nada que mereça medalhas, mas caso muito claro em que a separação entre EUA e União Europeia trouxe benefícios tangíveis a todo o planeta.

Rode a fita à frente, para as negociações importantes sobre o clima que se desenrolam em Bangkok. As conversações devem levar a um acordo em Copenhagen em dezembro próximo, que fortalecerá significativamente o Protocolo de Quioto. Andando na contramão desse acordo, EUA e União Europeia e o resto dos países desenvolvidos formaram um bloco unificado que quer substituir o Protocolo de Quioto. Onde Quioto fixou metas claras e inalteráveis para a redução das emissões, o plano dos EUA pretende que cada país decida quanto pode cortar e submeta seus planos a um grupo internacional de monitoramento (sem que nada, além da fantasia, assegure que esse plano conseguirá segurar a temperatura do planeta abaixo do nível-catástrofe previsto). E onde Quioto destaca claramente a maior responsabilidade dos países ricos que criaram a crise do clima, o novo plano iguala a responsab ilidade de todos, ricos e pobres.

Esse tipo de proposta escandalosa vinda dos EUA não surpreende. O que surpreende é a repentina unidade do mundo rico em torno da proposta dos EUA – inclusive vários países que, antes, muito elogiaram Quioto. E há outras traições: a União Europeia, que sinalizou que gastaria entre 19 e 35 bilhões de dólares/ano para ajudar países em desenvolvimento a adaptar-se à mudança climática, chegou a Bangkok com oferta muito reduzida, mais um aliado que, com os EUA, defende... nada. Antonio Hill, da Oxfam, resumiu assim as negociações: "Quando se ouviu o tiro de largada, foi o desastre, com todos os países ricos trabalhando juntos para enfraquecer os compromissos existentes no cenário internacional."

Não é a primeira vez que a segunda rodada de negociações faz gorar os bons acordos de uma rodada anterior, com boa legislação e boas normas e convenções espalhadas no chão e pisoteadas. Os EUA já desempenharam papel idêntico na conferência da ONU sobre racismo em Genebra em abril. Depois de extrair praticamente tudo o que implicaria algum avanço do texto que estava sendo negociado (nenhuma referência a Israel ou Palestina, nenhuma palavra sobre reparação pela escravidão etc.), o governo Obama optou pelo boicote total, afirmando que o novo texto "re-afirma" o documento firmado em 2001 em Durban, África do Sul.

Foi desculpa esfarrapadíssima, mas havia nela alguma espécie de lógica, porque os EUA jamais assinaram o documento original de 2001. O que não fez sentido algum foi a onda de 'solidariedade' que levou tantos países ricos a acompanhar o voto dos EUA. 48 horas depois de anunciada a posição dos EUA, Itália, Austrália, Alemanha, Holanda e Países Baixos, Nova Zelândia e Polônia retiraram-se da conferência. Diferentes dos EUA, todos esses países haviam assinado a declaração de 2001 – e, portanto, não poderiam ter objeções a um documento que reafirmava o que haviam assinado. Ninguém considerou (nem) o bom-senso.

Como no caso das negociações sobre a mudança climática, todos aqueles países apoiaram-se na impecável reputação de Obama, para safar-se do dever de cumprir compromissos internacionais; ao mesmo tempo, mostrando-se solidários a Obama, todos tentam ganhar uma beirada na aura progressista que o cerca – serviço que os EUA jamais prestaram a quem quer que fosse, nos anos dos governos Bush.

Os EUA também tiveram influência igualmente danosa e corruptora como novo membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Seu primeiro teste foi o corajoso relatório do juiz Richard Goldstone sobre o massacre de Gaza pelo exército de Israel, que denunciou os dois lados, tanto o Hamás quanto o exército de Israel, por prática de crimes de guerra. Em vez de reforçar seu compromisso com a legislação internacional, os EUA usaram seu poder para desqualificar o relatório ("eivado de vícios graves") e obrigar a Autoridade Palestina a apoiar a posição dos EUA. (A Autoridade Palestina, que foi obrigada a encarar reações furiosas no plano doméstico por ceder à pressão dos EUA, talvez modifique sua posição.)

Depois, foram os encontros do G-20, os compromissos multilaterais de Obama, todos encenados sob muitos holofotes. Um deles, em Londres, em abril, deu a impressão de que viesse a ser algum tipo de tentativa coordenada para pôr freio nos especuladores das finanças internacionais. Sarkozy chegou a ameaçar que se retiraria da reunião se não se produzissem sérios compromissos regulatórios. Mas o governo Obama não tem qualquer interesse em promover qualquer multilateralismo legítimo; em vez disso, advoga que os países apresentem (ou não) seus planos, cada um o seu; e esperemos que o melhor vença – mais ou menos como no péssimo plano norte-americano sobre mudança climática. Desnecessário dizer que Sarkozy não se retirou da reunião; apenas correu para a sala ao lado, para a sessão de fotografias com Obama.

Sim, claro, Obama fez alguns bons movimentos no cenário mundial – não apoiou o governo golpista em Honduras, apoiou a criação de uma Agência para as Mulheres na ONU... Mas deles emergiu um modelo bem claro: em áreas nas quais outras nações ricas oscilavam entre ações movidas por bons princípios democráticos e civilizacionais e a total negligência, a atitude dos EUA de Obama empurrou-os ativamente em direção à negligência. Se isso é a nova era de multilateralismo, não merece prêmio.

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Vermelho’, do 19 de outubro de 2009]

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