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A Alemanha se atravessa no caminho do governo da UE

A situação desoladora da União Européia forçou a unidade entre alemães e franceses na sua cúpula. Mas não haverá um governo econômico da UE com Berlim se atravessando em seu caminho. Haverá, isso sim, mais consultas e mais cúpulas de crises convocadas com urgência. Algo mais além disso será excluído por Berlim, porque seria tão grave como transferir competências. Contudo, a coisa está clara e de nada servirão os sucessivos vetos de Merkel: quem disser euro tem que seguir pensando em coordenação, trabalho conjunto, responsabilidade compartilhada.

“Ladrões! Ladrões!”, gritavam os bons cidadãos e respeitáveis meios de comunicação, até que finalmente receberam uma resposta com o guarda-chuva da salvação da União Européia. Agora que ele está aberto, os mercados parecem pouco impressionados. Mas os governos da UE saltaram em cima de sua sombra: com medo da próxima crise bancária, que inexoravelmente estourará quando os títulos desvalorizados da dívida pública se empilharem nos balanços contábeis dos bancos, e com medo da próxima crise de crédito, que paralisará o crédito interbancário por causa da desconfiança mútua imperante entre as entidades.

Dadas essas circunstâncias, o Banco Central Europeu (BCE) finalmente começou a comprar empréstimos públicos dos Estados da UE. O salvador maior dos Estados da eurolândia é inclusive um funcionário alemão. Em caso de necessidade, disponibilizará 440 bilhões de euros para evitar ameaças de quebras públicas. Quer dizer que o que fará será evitar que o propriamente inevitável – a reestruturação da dívida – dê-se ao custo dos credores, os bancos, sobrecarregando os contribuintes. Os bônus da dívida pública da UE, até há pouco considerados um demônio evitado a todo custo, estão na esquina, à espreita, embora ninguém se atreva a dizê-lo abertamente.

A Espanha precisa de crédito

Trata-se aparentemente do euro, mas a questão de fundo é quem tem poder de decisão na eurolândia: os governos, os parlamentos, o eleitorado ou a aristocracia financeira internacional? Não se deixará esta última obnubilar pelo fundo de resgate de 750 bilhões de euros. Sabe-se demasiado bem: alguns dos países que o garantiram são eles mesmos candidatos potenciais ao resgate. Jogando com o medo das quebras públicas se pode fazer negócios milionários maravilhosos: o “caso da Grécia” veio a propiciar, desde abril passado, uma prova contundente.

Portugal valentemente recusou-se a pedir ajuda ao fundo de resgate, e por isso pagou um preço relativamente alto. Conseguiu, em junho passado, o refinanciamento da uma dívida pública bilionária, mas os juros para novos empréstimos de dez anos foram claramente rebaixados em 5% do que o fundo de resgate europeu exigia, de acordo com a recomendação de seus credores.

A Espanha está cada vez mais próxima do abismo, mesmo que, em fins de maio, Madri tenha conseguido emitir 3,52 bilhões de euros em títulos de dez anos. Os juros foram impressionantes – 4, 07% -, mas ainda estiveram abaixo dos da agência de resgate. Em julho vence um novo refinanciamento de um montante de 16,2 bilhões de euros. Mesmo se funcionar, a crise bancária persiste. Visto que a bolha imobiliária arrebentou, as cajas de ahorro espanholas [1] estão sentadas sobre uma montanha de bilhões em hipotecas falidas, e os credores das mesmas hipotecas – nacionais e estrangeiros, bancos europeus e fundos de pensão – tremem pelo seu dinheiro. De onde Zapatero sacará os bilhões de euros de que se precisa para o resgate das cajas de ahorro? Amiúde, só resta a fusão de várias dessas entidades, mas aquelas resultantes da fusão necessitarão de mais dinheiro.

Um dos grupos bancários fusionados, precisamente – que inclui a Caja Madrid – acaba de exigir ajuda pública no valor de 4,5 bilhões de euros. Convencida de sua instabilidade e de sua solvência minguada, a agência de classificação de risco Moody’s acaba de rebaixar o índice da dívida pública espanhola. E o fez, para maior escárnio, com argumento idêntico ao utilizado pela agência Fitch para justificar esse passo: o novo programa de austeridade pública de Zapatero destrói toda perspectiva de animação da conjuntura econômica. E, com efeito, seja como for que a poupança caia, a sua queda constitui um perigo real. Graças à “liberalização” do mercado de trabalho agora se torna especialmente fácil demitir as apessoas.

Se a Espanha, que representa 12% do PIB da UE é arruinada economicamente e posta de joelhos, os campeões exportadores alemães perceberão nos seus bolsos. Não há o menor motivo para se alegrar com a política espanhola de austeridade pública. Igualmente difícil será para o governo francês embriagar-se com a sangria social da coalizão negroamarela [entre democratas cristãos e liberais] em Berlim. A Alemanha, a economia nacional mais forte da zona do euro, não faz senão prejudicar a si mesma ao arruinar os seus vizinhos. Pois o programa de ajuste do governo federal não fará senão seguir apostando num mercado interno que vive dos assalariados. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, tem sido mais do que obsequioso com Angela Merkel: o “modelo exportador” alemão – essa mescla única de elevada produtividade e dumping fiscal e salarial – funciona unicamente à mercê dos persistentes desequilíbrios da eurozona.

A indústria alemã permite que a União Européia seja um programa sem exemplo histórico de promoção de suas exportações, enquanto isso lhe custa pouco ou nada. A Alemanha, dizem os franceses, deveria reforçar sua situação fiscal e animar seu mercado interno. Amistosos, privam-se de acrescentar que a Alemanha deveria também proceder a reformas estruturais de fundo, como as que começam a acometer já a outros países exportadores do mundo, como China, Brasil e Índia.

Consideração análoga vale para a Grécia, pois ali também o programa de austeridade e arrocho fiscal conseguirá não o saneamento orçamentário, mas afundar a economia grega numa depressão de longa duração. À diferença da Alemanha, os gregos não dispõem de uma máquina de exportação em que confiar. Por consequência, as agências de classificação se mostraram selvagemente decididas a degradarem definitivamente a dívida pública grega a condição de moeda podre. E também com o argumento de que os programas públicos de austeridade, longe de sanar o déficit orçamentário, conseguiriam agravar a crise e torná-la duradoura. Enquanto isso, os bons burgueses gregos, cuja evasão fiscal foi fator de importância capital na bancarrota das finanças públicas, põem seu patrimônio em lugar bem seguro no exterior. Desde o começo do ano, houve uma transferência ao exterior de bons 20 bilhões de euros, para o deleite de intermediários financeiros e gestores imobiliários londrinos. Não pode surpreender a ninguém que o governo grego volte a flertar intensamente com especuladores chineses e líbios.

Dogmas estúpidos

Com tudo isso, a desoladora situação européia força à unidade entre alemães e franceses. O motor da zona do euro – a associação germano-gaulesa – balbucia de novo. De um lado, desafiam ao G20. Em poucos dias, na Cúpula de Toronto, terão ocasião de apresentar ao ilustre Clube sua exigência de um imposto bancário e de fiscalização das transações financeiras. Mesmo que a ATTAC venha a celebrar isso nomeando membros honoríficos da organização Angela Merkel e Nicolas Sarkozy, o certo é que a proposta dificilmente fascinará aos partidários da linha dura no G20.

Não haverá, em troca, como aparenta o presidente da República francesa, governo econômico da eurozona; haverá, isso sim, mais consultas e mais cúpulas de crises convocadas com urgência. Algo mais além disso será excluído por Berlim, porque seria tão grave como transferir competências. Contudo, a coisa está clara e de nada servirão os sucessivos vetos de Merkel: quem disser euro tem que seguir pensando em coordenação, trabalho conjunto, responsabilidade compartilhada. Inclusive – há que se cansar, um dia! - planificação e fiscalização do conjunto do desenvolvimento econômico. Hoje só dogmas estúpidos atravessam o caminho deste princípio de cooperação.

[Artigo tirado do sitio web ‘Agência Carta Maior’, do 21 de xuño de 2010]

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