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24/5/2011
Director da publicación con sede en París Le Monde Diplomatique.
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Quatro anos depois…

Três anos de reuniões do G20 que visavam criar uma «nova sinfonia planetária» conservaram portanto intacto um sistema que mistura desregulação bancária, prémios faraónicos para os geniozinhos da «inovação financeira» e pagamento de todos os danos que eles causam aos contribuintes e aos Estados.

 O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de o admitir: «Quase quatro anos depois do início da crise financeira, a confiança na estabilidade do sistema bancário global continua a precisar de ser restaurada» [1]. Mas aquilo que o presidente da Reserva Federal norte-americana, Ben Bernanke, qualifica como a «pior crise financeira da história mundial, incluindo a Grande Depressão» [2] de 1929, não conduziu a qualquer sanção penal nos Estados Unidos. Os bancos Goldman Sachs, Morgan Stanley e JP Morgan apostaram no colapso dos investimentos de risco que se apressavam a recomendar aos clientes… O pior que os espera são multas mas na maioria dos casos serão bónus.

 No fim da década de 1980, a seguir à falência fraudulenta das caixas de poupança americanas, foram levados aos tribunais 800 banqueiros. Agora, o poder dos bancos, ainda maior depois das reestruturações que concentraram o seu poder, parece garantir-lhes a impunidade face a Estados enfraquecidos pelo peso da dívida pública. Os próximos candidatos à Casa Branca, a começar por Barack Obama, estão já a mendigar as contribuições do Goldman Sachs para a sua campanha; o director do BNP Paribas não hesita em ameaçar os governos europeus com a crise do crédito no caso de estes regularem seriamente os bancos; a agência de notação Standard & Poor, apesar de ter atribuído a melhor nota (AAA) à Enron, ao Lehman Brothers, ao Bear Sterns e a todo o tipo de obrigações especulativas (junk bonds), projecta retirar a classificação à potência norte-americana se esta não reduzir mais depressa as despesas públicas.

 Três anos de reuniões do G20 que visavam criar uma «nova sinfonia planetária» conservaram portanto intacto um sistema que mistura desregulação bancária, prémios faraónicos para os geniozinhos da «inovação financeira» e pagamento de todos os danos que eles causam aos contribuintes e aos Estados. Os socialistas franceses mostram-se indignados pelo facto de «no ano a seguir à crise do subprime os governos terem atribuído mais dinheiro para apoiar os bancos e as instituições financeiras do que o mundo gastou, em meio século, para ajudar os países pobres!» [3]. Mas as soluções por ezles preconizadas assemelham-se a remendos (sobretaxa fiscal de 15% para os bancos) e a votos piedosos (eliminação dos paraísos fiscais, criação de uma agência de notação pública, taxa sobre as transacções financeiras), a partir do momento em que eles condicionam a implantação destas medidas a uma muito improvável «acção concertada dos Estados-membros da União Europeia».

 Assim, a crise que já devia ter sido vista como «crise a mais» foi uma crise para nada. Andrew Cheng, principal consultor da Comissão de Regulação Bancária chinesa, sugere que esta passividade resulta de um «problema de captura» dos Estados pelo seu sistema financeiro [4]. O mesmo é dizer que os responsáveis políticos se comportam demasiadas vezes como marionetas que se preocupam, sobretudo, em não incomodar o festim dos banqueiros.

 

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Notas:

[1] FMI, «Rapport sur la Stabilité Financière dans le Monde», Abril de 2011.

[2] Citado por Jeff Madrick, «The Wall Street Leviathan», The New York Review of Books, 28 de Abril de 2011.

[3] Projecto Socialista 2012. Suplemento do L’Hebdo des socialistes, n.º 610, Paris, 16 de Abril de 2011.

[4] Citado por James Saft, «Big Winners in Crises: The Banks», International Herald Tribune, Paris, 13 de Abril de 2011.

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[Artigo tirado do sitio web portugués de ‘Le Monde Diplomatique’, maio de 2011]

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