A revolta de Atenas responde à sede de vingança: põe um ponto final à ausência de respostas neste domínio. É certo que os que estão na vanguarda deste movimento não parecem ver de bom grado as palavras de ordem de esperança e as soluções optimistas. Distinguem-se desta forma das reivindicações utópicas de Maio 68 ou do espírito idealista e voluntarista de 1999...
1.
Penso que as sociedades em que vivemos estão a atingir o limite do suportável. Trata-se de uma cólera que não é levada em consideração e que pode, num ápice, cristalizar-se em torno de actos
discricionários da polícia ou ainda de fenómenos repressivos da força pública. Se bem que a sociedade burguesa raramente o reconheça, foi ela quem semeou a revolta.
Em 1992, em Los Angeles, todos os jovens que se manifestavam (mas também a polícia no terreno) anteviam que algo de apocalíptico se estava a preparar. O fosso que se cavava entre a juventude urbana e as autoridades municipais era evidente para qualquer observador, mesmo para o mais ingénuo: detenções em massa todas as semanas, numerosas crianças desarmadas abatidas pela polícia, discriminações contra jovens de cor tratados como um punhado de bandidos, abusos perpetrados por um sistema judicial descarado e corrupto...
Contudo, aquando da sentença que ilibou a polícia do crime de espancamento, que quase matou Rodney King, as elites políticas reagiram face à explosão de cólera como se algo de estranho e imprevisível acabasse de sair das entranhas da terra. Os média, ao construírem uma visão a partir de imagens filmadas dos helicópteros, fizeram tudo para moldar a percepção que o mundo haveria de ter dos motins, através de simplificações redutoras e de estereótipos convencionais: para eles tratava-se de gangs de negros que punham a fogo e a saque as artérias da cidade.
O que na realidade se passou foi que a decisão do tribunal, no processo de Rodney King, se havia transformado no eixo central de uma onda de protestos muito diversos e que aqui vieram aglutinar-se. Entre os milhares de detidos verificou-se que uma ínfima parte pertencia a um gang e que um terço era de origem afro-americana. A maioria era composta por imigrantes pobres ou por seus filhos, e tinha sido detida por furto de pacotes de fraldas, de calçado ou televisores em estabelecimentos comerciais. Na altura (e ainda agora), a economia de Los Angeles encontrava-se numa crise aguda e os bairros latinos pobres do oeste e do sul eram as zonas mais severamente atingidas. No entanto, a imprensa nunca manifestou o mínimo interesse pela situação miserável destes bairros e, por tal razão, a dimensão social das revoltas da fome foi praticamente silenciada.
Factos semelhantes ocorrem hoje na Grécia. Assim, um acidente «banal» perpetrado pelas forças policiais despoletou uma onda de reacções, que foram então descritas de forma estereotipada, isto é, como se fossem o resultado de uma cólera inexplicável e imputável a tenebrosos anarquistas. O que acontece de facto desde há muito é «uma guerra civil larvar» que poderia explicar as relações tensas entre a polícia e os diversos estratos da juventude grega.
2.
Não tenho a mínima competência para comentar a especificidade dos acontecimentos na Grécia, mas tenho a impressão que apresenta importantes contrastes com o que aconteceu em França, em 2005. Se bem que a segregação territorial da juventude miserável e imigrante pareça menos extrema que na periferia parisiense, as perspectivas do mercado de trabalho para os filhos da pequena burguesia grega apresentam-se mais desfavoráveis; a mistura destes dois factores trouxe para as ruas de Atenas uma coligação mais diversa composta por estudantes e jovens adultos desempregados. Por outro lado, os jovens gregos herdaram uma velha tradição de protesto e uma singular cultura de resistência na Europa.
3.
O que quer a juventude grega? É evidente que a juventude grega se apercebe claramente dos contornos assumidos pela recessão mundial ao aglutinar-se às tradicionais reformas do sistema educativo e do mercado de trabalho. Neste contexto, por que é que estes jovens acalentariam esperança no retorno do PASOK e no seu cortejo de promessas nunca cumpridas?
Aquilo a que se está a assistir agora é a uma revolta original que os motins de Los Angeles, Londres e Paris prefiguraram, mas que se desenrola a partir de uma compreensão mais profunda de um futuro que já tinha sido subtraído antes da hora. E, com efeito, pode-se perguntar: - Que geração, na história moderna (exceptuando os filhos da Europa de 1914) foi a tal ponto traída pelos seus antecessores?
É uma questão que me atormenta. Tenho quatro filhos e até o mais novo compreende que o futuro dele será radicalmente diferente do meu passado. A minha geração, a do 'baby-boom', deixa aos seus filhos uma economia mundial em ruínas, desigualdades sociais extremas e um planeta cujo clima se tornou incontrolável.
4.
Atenas tornou-se no paradigma da resposta a esta questão: «Haverá uma vida depois de Seattle?»
Lembrem-se das manifestações contra a OMC e da 'batalha de Seattle', em 1999, que foram o começo de uma nova era de protestos não violentos e de activismo local. A popularidade dos fóruns sociais mundiais, os milhões de manifestantes contra a invasão do Iraque pelas tropas de Bush e o enorme apoio aos acordos de Kyoto, tudo isto veiculava uma grande esperança, a esperança que um novo mundo estava a nascer. Mas, ao mesmo tempo, verifica-se que a guerra não acabou, que se acumulou drasticamente a emissão de gases de efeito de estufa e que o movimento dos fóruns sociais estacou. Foi um ciclo inteiro de protestos que chegou ao fim, no dia em que a caldeira do capitalismo mundial explodiu em Wall Street, arrastando consigo simultaneamente problemas mais profundos e novas oportunidades de radicalização.
A revolta de Atenas responde à sede de vingança: põe um ponto final à ausência de respostas neste domínio. É certo que os que estão na vanguarda deste movimento não parecem ver de bom grado as palavras de ordem de esperança e as soluções optimistas. Distinguem-se desta forma das reivindicações utópicas de Maio 68 ou do espírito idealista e voluntarista de 1999. Esta ausência de demanda por reformas (e consequentemente de qualquer tábua de salvação que permita a gestão dos protestos) tornou-se o elemento mais escandaloso e não os cocktails Molotov ou as montras vandalizadas. Assemelha-se menos aos movimentos estudantis nos anos 60 que às revoltas intransigentes do anarquismo da ralé do Montmartre nos anos de 1890 ou do 'Bairro Chino' de Barcelona no início dos anos 30.
Certos activistas norte-americanos vêem nestes acontecimentos um simples renovar do estilo dos protestos herdados de Seattle aos quais, a partir de agora e provisoriamente, se acrescenta uma pitada de paixão mediterrânica. Tudo isto se adapta ao paradigma por eles defendido da 'mudança Obama', que consiste em compreender o presente como um simples remake dos movimentos reformistas dos anos trinta e sessenta.
No entanto, outros jovens que eu conheço rejeitam completamente esta interpretação. Vêem-se, à semelhança dos anarquistas fim-de-século, como uma 'geração perdida' e vislumbram nas ruas de Atenas o bom sistema métrico da sua própria raiva.
Existe, claro está, o perigo de se exagerar a importância de uma revolta que se desenrola num dado contexto nacional, com as suas especificidades. Mas o mundo tornou-se inflamável e Atenas é a primeira faísca.
[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 23 de febreiro de 2009]