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27/4/2012
Economista, argentino, investigador e professor, membro do EDI (Economistas de Izquierda).
Chuza Menéame del.icio.us
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Argentina: os desafios da nova YPF

A intervenção na YPF e a introdução de uma gestão estatal da empresa são medidas necessárias para começar a reverter a depredação energética. Mas constituem só um ponto de partida para recuperar os recursos petrolíferos.

 Durante uma década a Repsol liderou o esvaziamento de poços, reservas e instalações pré-existentes. Extraiu o máximo possível sem investir e expatriou lucros de forma escandalosa. Esta conduta não irritou nenhum dos críticos neoliberais da expropriação em curso. Agora questionam a "violação da ordem jurídica", esquecendo o total descumprimento dos contratos por parte da firma. Este duplo critério é congruente com a sua habitual aprovação dos atropelos contra os direitos dos assalariados ou aposentados. Nunca estendem a estes setores os princípios da segurança jurídica.

Falácias neoliberais

 Os direitistas estão a recriar os fantasmas de 2001-2005 e repetem os mesmos argumentos que difundiram a seguir ao descumprimento (default). Advertem contra as terríveis consequências de "isolar-se do mundo", omitindo o seu recorde de prognósticos falhados.

 Alguns desculpam a Repsol afirmando que sofreu um castigo de preços desfavoráveis. Mas silenciam os sucessivos ajustes dos últimos anos, a autorização para liquidar divisas no exterior e a permissão para exportar a custo do auto-abastecimento. As objetadas retenções móveis às vendas externas foram uma tênue compensação pela terrível drenagem que o país sofreu. Tão pouco recordam que a falta de investimentos remonta aos anos 90, quando o combustível era muito caro em dólares.

 Os porta-vozes locais da Repsol afirmam que a expropriação afugentará os investimentos, que são necessários para recompor a produção. Mas o desenvolvimento petrolífero da Argentina nunca proveio dos capitais estrangeiros. Foi um resultado da propriedade estatal do petróleo bruto e do equilíbrio entre exploração (exploración) e gestão da extração (explotación) de poços, que se conseguiu mediante um sistema integrado de extração, refinação e comercialização. Este regime foi demolido com a privatização e deveria ser recomposto para reconstruir o abastecimento.

 Qualquer passo nessa direção é visto pela direita como uma expressão de "populismo, ou demagogia nacionalista". Mas com o seu apoio à privatização já demonstraram como concebem o ideal oposto de condutas republicanas, maduras e responsáveis.

 Os defensores mais descarados da Repsol alertam contra o iminente conflito entre argentinos e espanhóis que provocará a expropriação, como se a firma afetada fosse a representação do povo ibérico. Na realidade é uma empresa privada de duvidosa propriedade espanhola, uma vez que o grosso do seu capital encontra-se distribuído em vários centros financeiros do mundo. Como se especializada, além disso, em localizar sociedades em paraísos fiscais, potencia a evasão tributária que deteriorou as finanças espanholas, precipitando o brutal ajuste que padece esse país.

 A Repsol, naturalmente, é defendida por uma monarquia e um governo reacionário, que continuam a exibir soberba neo-colonial com crescente descaramento. A repetição local dessa diatribe é particularmente chocante. Como a empresa recorrerá a seus aliados da Europa e ao G20 para gerar um conflito jurídico internacional, é imperioso que a Argentina se retire do CIADI . Esse tribunal já tem preparada uma sentença a favor daquela petrolífera.

Empresa mista ou estatal?

 Os principais problemas da nova YPF não estão no flanco externo. É evidente que o governo decidiu a expropriação por necessidade e não por convicção. Estava aguilhoado pela queda da produção e consequente obrigação de financiar importações com os poucos recursos que dispõe a Tesouraria. Pressionados por essas circunstâncias efetuou uma volta de 180 graus no seu idílio anterior com a empresa afetada. Negociou sem resultados um compromisso de maior investimento e finalmente optou pelo choque com os seus velhos sócios. A expropriação não faz parte de uma estratégia prevista, nem obedece ao grande volume de votos conseguido nas últimas eleições.

 

 A reconstrução da YPF encontra-se agora em mãos daqueles que participaram na sua destruição. Grande parte da elite atual de funcionários tomou parte no sucateamento da empresa durante o governo Menem e no remate das suas ações. Sua responsabilidade no descalabro energético dos últimos oito anos é inocultável. De Vido é a antítese de Mosconi. Pelo seu gabinete passaram todas as autorizações requeridas para validar o aniquilamento da YPF.

 A iniciativa da expropriação é positiva, mas seus efeitos reais dependerão das próximas medidas. Uma decisão chave joga-se no manejo da indenização. Não se pode pagar pelo que é nosso, nem premiar com maiores fundos aqueles que descapitalizaram a empresa. Ainda há que averiguar quais foram os lucros reais que a Repsol acumulou com a distribuição de lucros à custa dos ativos energéticos e com a expansão internacional da companhia, utilizando os recursos do subsolo nacional.

 Antes de falar de qualquer avaliação da empresa (por cotação na bolsa, contabilística ou patrimonial) há que ver os resultados de uma auditoria, que esclareça o estado dos poços e dos danos ambientais. Se se utilizam os fundos do ANSES, as reservas do Banco Central ou a emissão de nova dívida para pagar a Repsol, repetir-se-á a velha história de um estado bobo que se encarrega das perdas provocadas por ex-concessionários.

 A nova YPF é concebida como uma sociedade anônima, seguindo um modelo de empresa mista muito distante da velha companhia inteiramente estatal. Esta decisão é errada e conspira contra o projeto de reconstrução energética. Não é casual que existam tantos exemplos internacionais de manejo totalmente público de um recurso vital. Esse modelo de propriedade pública manteve a taxa de exploração requerida no passado para um país como a Argentina, que tem reservas limitadas e de extração custosa.

 A necessidade de um longo processo de investimento não é compatível com o esquema idealizado de companhias mistas, que já foram ensaiados na primeira etapa de privatização da YPF. Um teste próximo dos problemas que este modelo enfrentará verificar-se-á quando tiver de ser resolvida a situação do grupo Eskenazi. Esta família ficou como sócia minoritária da nova YPF, depois de haver perpetrado uma fraude superior às tropelias cometidas pela Repsol.

 Comprou a sua participação sem por um só peso, recorrendo a um crédito a pagar com a distribuição de lucros. Sua permanência está em dúvida, a partir do momento em que terá de cancelar esse empréstimo com o seu próprio dinheiro. Se se concretiza a sua deserção; Quem se encarregará desse pacote? O estado mediante perdas adicionais? Ou haverá uma transferência para outros "capitalistas amigos" (Bulgheroni, Cristóbal López, Lázaro Báez, Eurekian), que já ficaram com várias áreas sem realizar nenhum investimento?

 O perigo da sociedade mista não reside só nesses favoritismos. A forte presença do capital privado dentro da companhia exige que se opere com critérios de rentabilidade imediata, que obstruem a prioridade investidora. Este modelo induz, além disso, ao aumento dos preços na boca do poço pela pressão para alcançar maiores lucros, gerando um encarecimento adicional do combustível.

Gestão, legislação e propriedade

 O governo promete uma administração profissional da nova YPF. Mas esta meta exige não só conhecimentos técnicos como também grande independência do lobby petrolífero. Se as firmas privadas participam do diretório, aumentará o perigo de repetir os vícios do passado (endividamento desnecessário da companhia) ou incorrer em novos desacertos (uso dos recursos para financiar o buraco de importações). É evidente que a transcendência de definir como se administrará a companhia e a Enarsa é um mau antecedente imediato. Torna-se imprescindível dotar a YPF de um genuíno controle social, popular e dos trabalhadores.

 Mas o maior problema está no sucederá com os 70% da atividade petrolífera que atualmente é desenvolvida fora da YPF. O governo não definiu que tipo de modificações serão introduzidas, num sector regido por princípios neoliberais de livre disponibilidade do petróleo bruto por parte dos concessionários.

 A revisão dos contratos subscritos com essas normas mal começou e na sua grande maioria afetou poços marginais. O projeto de lei em curso não esclarece o que ocorrerá com o marco legal que permitiu a atomização do setor e a proliferação de uma grande variedade de convênios gravosos. Impõe-se aqui a imediata recuperação da atribuição do estado para controlar toda a comercialização interna e externa, fixando as condições e os preços de extração e processamento.

 A propriedade provincial do subsolo constitui outro impedimento para alcançar essa meta. Mantém o poder discricionário dos governadores no manejo de um recurso de toda a nação. O compromisso da sindicatura comum [de acionistas] que se estabeleceu com as províncias para o manejo da YPF não se estende ao resto do setor e só adia a necessidade de reintroduzir a propriedade nacional. Marginalizar as províncias não petrolíferas da nova condução da YPF não contribui para essa recomposição.

 Com a expropriação abre-se um novo capítulo da história petrolífera. Há condições nacionais e internacionais muito favoráveis para reconstruir nosso cimento energético, avançando rumo a uma empresa totalmente pública. Só este esquema permitirá equilibrar os custos de extração com os preços requeridos para o desenvolvimento industrial. Este manejo é indispensável para diversificar a matriz energética, reduzir a dependência dos hidrocarbonetos e evitar uma maior deterioração do meio ambiente.

 O alcance destes objetivos exige que se afete os interesses capitalistas que até agora o governo protegeu e adotar uma atitude soberana frente às pressões externas. A mobilização popular com bandeiras próprias é o grande instrumento para esta ação.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Vermelho’, do 26 de abril de 2012]

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