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30/4/2008

Historiador, nado en Bos Aires en 1928, doutor en Ciencias Políticas pola Universidade de París, é columnista do xornal mexicano La Jornada e foi profesor da Universidade Nacional Autónoma de México e da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco. Entre outras obras publicou: Polonia: obreros, burócratas, socialismo (1981), Ética y Rebelión (1998), El Istmo de Tehuantepec en el Plan Puebla Panamá (2004), La protesta social en la Argentina (1990-2004) (Ediciones Continente, 2004) y Zapatistas-Un mundo en construcción (2006).

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Itália: O 18 Brumário de Silvio Berlusconi

Com a maioria absoluta em ambas as câmaras, obtida também por meio de uma lei eleitoral pensada para ele, agora este "lúmpen-capitalista" de baixíssimo nível cultural, político e moral, transformou-se em um novo Napoleão III. A vitória de Berlusconi é reflexo do desastre cultural e político que a Itália vive há um quarto de século, por obra e graça dos dirigentes comunistas.

 

A Itália e a Constituição nascidas da derrota do nazifascismo na segunda guerra mundial acabam de desaparecer. As recentes eleições introduziram, na verdade, uma mudança de regime, e durante cinco anos dão o poder absoluto para Silvio Berlusconi, o homem mais rico do país; ou seja, o poder vai para um aventureiro das finanças ligado à máfia, à qual rende homenagem publicamente, e que já foi processado várias vezes na Itália e em outros países, livrando-se de ser condenado graças, exclusivamente, à sua imunidade parlamentar ou a leis ad hoc redigidas e aprovadas para seu exclusivo benefício.

 

Com a maioria absoluta em ambas as câmaras, obtida também por meio de uma lei eleitoral pensada para ele, agora este "lumpencapitalista" de baixíssimo nível cultural, político e moral, transformou-se em um novo Napoleão III. Com efeito, pode acabar com a independência dos juízes, destruir o sistema público de saneamento, eliminar a justiça do trabalho e as conquistas dos trabalhadores que ainda estão em pé, reforçar a repressão contra os imigrantes e os trabalhadores, fazer com que o Estado pague o ensino religioso e destrua o direito ao aborto, como pede o Vaticano e, inclusive, fazer com que seus sequazes o elejam presidente da República, somando, assim, outros sete anos ao mandato de cinco que os eleitores acabaram de conceder-lhe.

 

Com esse neo-Duce, aliado com o clero, com os fascistas engravatados e com os racistas da Liga Norte, nasce um regime. Um regime que não tem contrapeso parlamentar porque a "oposição" (os ex-comunistas e ex-democrata-cristãos que, com o nome de Partido Democrático, têm como referencial Bill Clinton e seu partido) declarou que compartilha a ideologia neoliberal de Berlusconi e porque, pela primeira vez desde o regime fascista que caiu com a guerra, nas instituições parlamentaristas não apenas estão ausentes os revolucionários, mas também não aparecem os tradicionais (e conservadores) comunistas e socialistas.

 

Napoleão III apoiava-se no que de mais atrasado havia na França e nos lúmpens, seus congêneres, e preocupava-se sobretudo pelos seus próprios negócios ilegais, sem deixar de defender —mas apenas em segundo lugar— os interesses coletivos do capital. Silvio III apóia-se, por sua vez, na berlusconização da maioria dos italianos, pois ele é o mais bem-sucedido e representativo dos medíocres e egoístas que adotam os Estados Unidos como modelo de consumo e de vida e, como ele, carecem de cultura, são provincianos, italocêntricos, racistas, e não têm nem espírito solidário nem consciência cidadã.

 

A oposição operária a Berlusconi foi principalmente sindical, e não pesou com força própria. Uma parte do voto operário, enojado dos partidos que formavam o governo Prodi, preferiu a abstenção. Mas a racista Liga Norte duplicou seus resultados graças aos votos operários e representa agora, no governo de Silvio III, a ala plebéia que poderia trazer-lhe problemas sociais.

 

Silvio III apóia-se em muito na burocracia estatal, no Vaticano que está em mãos de um Papa ex-SS, na máfia que conquistou a Sicília e no desastre cultural e político que a Itália vive há um quarto de século, no mínimo, por obra e graça dos dirigentes comunistas. Vai chegar o momento de fazer um balanço sobre quem são os responsáveis por esta berlusconização, entre aqueles que até 1976 buscavam uma mudança social, mas pela esquerda.

 

Por enquanto, basta dizer que os aprendizes de bruxo que elaboraram o caldo que transformou em sapo berlusconiano boa parte do famoso "povo de esquerda" foram Togliatti e seus seguidores e epígonos, principalmente no Partido Comunista Italiano, mas também na Nova Esquerda nascida em 1968-69. Todos esses mariscais especialistas em derrotas devem ir embora, desaparecer, cobrir a cara com um véu e emigrar para o Sahara.

 

Por desgraça, muitos deles, para seguir na carreira de políticos, querem aproximar-se do partido de Veltroni (o PD) após perderem mais de três milhões de votos em poucos meses, os quais foram para o PD ou para a abstenção.

 

Quais restos do naufrágio é possível resgatar? Esse 1% que declarou não estar atrás de cadeiras no Parlamento, mas, sim, querer reconstruir com um trabalho cotidiano e lento, a partir da base, uma cultura e uma força anticapitalista, mais quase a metade dos 3,1% obtidos pela Esquerda alternativa, que fala em voltar às portas das fábricas e que fazem autocrítica por terem sido institucionalistas e mais do que moderados, e também os esquerdistas que se abstiveram repudiando as candidaturas daqueles que se apresentavam como seus partidos e, finalmente, inclusive alguns que se deixaram seduzir pela ira plebéia da Liga.

 

Não é muito, mas o resultado dessa soma são centenas de milhares de pessoas que podem pesar nas fábricas e nos centros de estudo, e que podem ser a base para uma luta cultural e política que, apoiando-se nos conflitos que inevitavelmente irão desencadear as políticas de Berlusconi, e que vão construindo idéias e projetos anticapitalistas.

 

Reconstruir a esquerda italiana não é uma tarefa impossível. Há, no entanto, pré-condições: a primeira é recuperar a militância e formar os jovens dentro dela, voltando ao campo social, organizando os imigrantes, que estão em perigo, recrutando jovens operários nas fábricas e no trabalho sindical, unindo e organizando em ligas os trabalhadores informais. A segunda é dar prioridade às lutas e ter um funcionamento horizontal e democrático nas organizações revolucionárias, que só poderão funcionar graças ao esforço, à consciência e à abnegação de seus membros.

 

A terceira é fazer um balanço teórico-crítico sobre o marxismo na Itália e sobre a história de seu movimento operário ao mesmo tempo em que se trabalha junto com ele. A última, mas sine qua non, é lembrar que o fim do regime de Napoleão III levou à Comuna de Paris, e que nela militaram, juntas e sem sectarismos, todas as tendências anticapitalistas da época.

 

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Carta Maior’, do 22 de abril de 2008]

cig.prensa@galizacig.com