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Portugal sem rumo perante a crise

Preocupados apenas com a manutenção no Poder, José Sócrates e o governo PS, indiferentes à crise económica e financeira que avança no país, desbaratam a sua acção numa enorme campanha publicitária, descurando as medidas necessárias para atenuar a profunda e extensa crise económica e social

«Claro que há luta de

classes, mas é a minha

classe que está a vencer»

(Warren Buffet) [1]

A crise está aí. As falências das gigantescas sociedades financeiras Fannie Mae e Freddie Mac, evitadas com a nacionalização (no caso dos prejuízos) pelo governo dos EUA, foram seguidas, de imediato, pela falência do 4º maior banco de investimentos dos Estados Unidos, o Lehman Brothers, a que se seguiu a nacionalização da AIG com compra de 79.9% do capital da falida seguradora.

O Merril Lynch foi absorvido, com ajuda estatal, pelo Bank of América, fórmula encontrada para prosseguir a concentração da riqueza e evitar a falência.

O secretário do Tesouro dos EUA submete ao Congresso um Plano de 700 mil milhões de dólares e pede aos «colegas de todo o mundo que concebam programas idênticos para seus bancos e entidades financeiras», na tentativa de evitar o colapso do sistema capitalista.

Todos temem e ninguém fala da corrida aos bancos.

Em Fevereiro, o governo inglês nacionalizou, temporariamente!, o Northern Rock. Ron Sandler, ex-presidente do Lloyd’s, nomeado administrador disse que para recuperar o banco antes de ser desnacionalizado!, «é irrealista falar de meses. Estamos claramente a falar de um período de alguns anos".

A UE, em 10 de Setembro, reconhece a entrada em recessão da Alemanha, Reino Unido e Espanha, os maiores parceiros económicos de Portugal e revê em baixa todas as previsões económicas para 2008 e 2009.

Em Portugal, José Sócrates, com a cândida postura juvenil que o define e o fraseado publicitário que caracteriza o seu discurso político, tenta mostrar uma competência que não tem… e, enganado pelo seu ministro das Finanças, diz que Portugal vai no bom caminho, apesar de algumas dificuldades presentes.

Na verdade, Teixeira dos Santos, ministro das Finanças português, afirmou em 10 de Junho com fingida surpresa: «Creio que há uma ano atrás todos esperávamos que esta situação e a incerteza que daí decorria se pudesse desvanecer mais rapidamente».

Fernando Ulrich, na RTP, falou da solidez do banco a que preside (está a ceder dinheiro no mercado interbancário, disse), mas não disse que o seu banco lançou há semanas no mercado um «produto» a seis meses com uma taxa de 6%, quando a Euribor a 6 meses só dia 17 de Setembro subiu para 5,202%...

Eles tinham de saber…

A crise no imobiliário norte-americano era expectável. Em Maio de 2007 já Mike Withney [2] analista económico norte-americano dizia que «os preços das casas novas caíram em 17 das 20 maiores cidades dos EUA e as linhas de tendência indicam que o pior ainda está para vir. As vendas de casas novas caíram em Março a pique estabelecendo o recorde de 23,5% (…) afastando qualquer esperança de recuperação rápida. (…) É provável que a próxima vítima seja o mercado bolsista. (…) A bolha de crédito de Wall Street é ainda maior que a imobiliária».

Eram conhecidas as manobras de gestores bancários pagos em função dos lucros, apurados por «contabilidades criativas». Chuck Butler do Evergreen Bank explicou a manobra, há quase 2 anos, no Daily Pfenning: «Uma vista de olhos é suficiente para mostrar que a Reserva Federal está a bombear grande quantidade de dinheiro a uma surpreendente taxa de 11,8% ao ano. (…) O mercado bolsista é obrigado a crescer para poder acompanhar o preço de todo este dinheiro novo. Enquanto a Reserva Federal não fizer ondas com outro aumento das taxas ou fechar a torneira do dinheiro, os mercados continuarão». Mas a orgia não podia continuar indefinidamente.

Ninguém é responsável: banqueiros e governantes atiram com desfaçatez as culpas à supervisão, como se não fossem eles os responsáveis políticos pelas manobras e pela supervisão do sistema.

Sem rumo perante a crise

Nesta luta de classes travada por vezes de forma surda mas real, dia-a-dia e 24 horas ao dia, José Sócrates e o governo PS mostram-se indiferentes ao crescente aumento do número de pessoas abaixo do limiar de pobreza e que recorrem, crescentemente, a estruturas de solidariedade social para comer uma refeição por dia.

Em Portugal, por exclusiva responsabilidade da política do governo PS, há uma degradação crescente das condições de vida, bem expressa no crescimento em flecha do crédito malparado: em Julho de 2008 o seu aumento foi de 3,16%, sendo que, só no sector de habitação (um bem essencial), passou de 1,43 para 1,48 mil milhões de euros (+3,5%), enquanto o crédito ao consumo, no período de um ano, chegou no passado mês de Junho a 678 milhões de euros, um aumento de 66% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No mesmo mês, Julho de 2008, o total de crédito de cobrança duvidosa concedido pelas instituições de crédito em Portugal ascendeu a um novo máximo de sempre, a astronómica soma de 2,73 mil milhões de euros, mais 24% do que em Julho de 2007!

Se a fingida surpresa de Teixeira dos Santos pode ser entendida como uma fuga a responsabilidades próprias pela crise económica e social interna, a reincidência de José Sócrates num slogan publicitário («a força da mudança»), em detrimento de medidas que atenuem os efeitos da crise, comprova a leviandade com que a profunda e extensa crise é encarada. Sócrates não podia ignorar que 6 dias antes, após uma reunião com o secretário do Tesouro e o presidente da FED, Harry Reid, líder democrata no Senado dos EUA, declarou perante a gravidade do que ouviu, que «estamos em território desconhecido, este é um jogo diferente… Ninguém sabe o que fazer».

A verdade é que José Sócrates e o governo PS já deram provas ao longo de três anos e meio que a sua convicção é a mesma de Warren Buffet referida em epígrafe, daí a sua opção de classe, bem explícita na recente e apressada aprovação, na generalidade, do Código de Trabalho.

Num mundo em crise e com os nossos principais parceiros económicos, Espanha, Alemanha e Reino Unido, já em recessão, o decréscimo acelerado das exportações é uma perspectiva inelutável, o mesmo acontecendo com o número de turistas e as receitas do turismo.

Por isso, abandonar a obsessão do deficit orçamental e fomentar produção nacional e o crescimento do mercado interno, só possível com um aumento claramente superior à inflação dos salários e pensões, são medidas indispensáveis para atenuar os efeitos da crise diariamente ampliados.

Mas estas medidas, urgentes e imperiosas, se podem atenuar os efeitos desta profunda e extensa crise, não evitam o aparecimento de novas crises sempre inerentes ao capitalismo.

Só com uma ruptura social e a assumpção pelas classes trabalhadoras do papel de sujeito da História um outro mundo será possível, um mundo onde a actividade humana não seja orientada pelo lucro, mas pela satisfação das necessidades desta Humanidade ansiosa por Justiça.

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NOTAS:

[1] Warren Buffet, o homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes de 3 de Maio de 2008.

[2] The Harder They Come ... A Stock Market Post-Mortem publicado em 3 de Maio 2007 (www.counterpunch.org)

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[Artigo tirado do sitio web portugués ‘ODiario.Info’, do 20 de setembro de 2008]

cig.prensa@galizacig.com