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Paradeira geral: o mundo espera o 17 de junho

A eleição dia 17, na Grécia, transformou-se num acontecimento capaz de deixar em suspenso a respiração dos mercados. Ademais de emprestar um certo vapor de irrealismo a tudo o que se decide, apregoa ou se prevê nestes dias e horas que antecedem o pleito.

 Critica-se a esquerda grega por uma ambiguidade supostamente oportunista: de um lado, a recusa ao programa de arrocho exigido pelo comissariado do euro em nome dos credores; de outro, a opção por permanecer nos marcos da União Europeia, sem abandonar o euro. A crítica faz sentido quando se concebe a adesão à moeda única como uma declaração de renúncia a qualquer projeto nacional, portanto, uma transferência integral da soberania democrática aos diretórios e organismos que asseguram e supervisionam a supremacia das finanças desreguladas na zona do euro.

 A acusação perde sentido quando a posição da Syriza, que disputa a preferência do eleitorado grego nas eleições do dia 17, deixa de ser encarada apenas como a conveniência de uma nação com histórico de elites sonegadoras e governantes corruptos, para assumir contornos de um questionamento mais amplo aos alicerces que ordenaram a implantação do euro desde 1992.

 Afastado o preconceito, é possível enxergar na catarse grega a emergência de novos atores e o impacto de evidencias históricas desconsideradas no auge da hegemonia neoliberal que pautou o Tratado de Maastricht. Mas não só: pautou também --inclusive no Brasil-- o legado de interdidos e vetos que ainda hoje erguem um cordão de isolamento entre o poder das finanças e o poder democrático; entre o interesse nacional e os livres mercados.

 A emergência desses grandes confrontos históricos, indicativos de uma dobra que começa a demarcar o novo capítulo da crise de 2008, explicam porque a eleição dia 17, na Grécia, transformou-se num acontecimento capaz de deixar em suspenso a respiração dos mercados. Ademais de emprestar um certo vapor de irrealismo a tudo o que se decide, apregoa ou se prevê nestes dias e horas que antecedem o pleito.

 A sociedade grega talvez não saiba o poder que tem em mãos porque a mídia não deixa que saiba e os mercados não tem interesse que esse discernimento se transforme em ação política. Pouco sutil, um jogral colonialista cuida de disseminar o horror à soberania política. Ofensas, chantagens e ameaças denunciam o arcabouço histórico vocalizado por gargantas representativas dos principais interesses agora questionados: o poderio germânico no euro; os bancos credores cúmplices do endividamento irresponsável contraído por Atenas e, claro, os organismos internacionais que supervisionaram todo o processo, a exemplo do FMI, da senhora Christine Lagarde --que recorreu à miséria africana para minimizar os efeitos colaterais do ajuste grego.

 O megaespeculador George Soros acusou recentemente a Alemanha, o FMI e outros de submeterem a periferia europeia a mesma carga de sacrifícios que a banca internacional descarregou sobre países endividados da América Latina nos anos 80. Uma década foi perdida. Um ciclo de riquezas foi abortado ou penhorado nas transferências de recursos para atender ao escalpo programado pelos bancos e fiscalizado pelo FMI. Soros acusa a Alemanha de impor um esfolamento semelhante à periferia do euro.

 A implantação do euro começou e 1990,e não por acaso com um decreto de liberação completa dos mercados para o trânsito dos capitais; foi seguido de iniciativas louváceis de convergência econômica que se desdobrariam, porém, num processo de endividamento opressivo das economias periféricas. O que se consolidou daí foi uma separação entre a soberania democrática e os processos econômicos. Estados e projetos locais foram triturados e recolhidos ao lixão da história. A capacidade de ação contracíclica do aparelho público nacional foi suprimida e desautorizada, como recomendava o figurino neoliberal da época.

 A clivagem entre o poder da sociedade e o dos mercados --que passaram a dispor de moeda sem comando democrático, evidenciou-se na cristalização de um Parlamento Europeu, cujo recorte quase ornamental contrasta com o que pode e faz a Comissão Europeia , hoje um dos tenazes mais rígidos na tarefa de triturar direitos e salários. Não se trata de sadismo pessoal de Merkel & cia, mas , sim, de uma lógica que tem no aviltamento do trabalho o único lubrificante capaz de sustentar uma arquitetura historicamente esgotada. Dia 17 de junho, as urnas gregas dirão se chegou a vez do futuro ou se o passado continuará a ditar o presente. Até lá o ar fica parado e a respiração da história em suspenso.

 

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 4 de xuño de 2012]

cig.prensa@galizacig.com