O ano de 2008 foi marcado na América Latina e no Caribe, fundamentalmente, pela consolidação e ampliação dos diversos processos de transformação social, política e econômica que acontecem na região, além de tudo, com características de posições independentes e de defesa da soberania nacional que se tornaram patentes em momentos diferentes ao longo do período.
O regime de George W. Busn fracassou estrondosamente em suas tentativas de frustrar esses processos mediante pressões, ameaças, chantagens, utilização da violência e de subterfúgios de todo tipo, pondo em prática conspirações e conjuras, em cumplicidade com seus servidores das oligarquias locais.
Após 12 meses, tornou-se evidente a impotência do império e, conseqüentemente, o imperialismo norte-americano recolhe os mais rotundos fracassos que a agonizante administração tem que assumir forçosamente, e ter o pesar de assistir o avanço da democratização e das tentativas de busca de mais justiça social e eqüidade, pondo fim ao saque dos recursos naturais e à secular política depredadora do capitalismo por parte da nova liderança no setor econômico em vários países pela vontade expressa na urnas da imensa maioria do eleitorado.
De qualquer forma, paulatina ou rapidamente, e sempre de acordo com as tradições, as condições e situações concretas de cada país latino-americano e caribenho, os novos processos de emancipação lutam para ganhar terreno, apesar da mais forte resistência dos exploradores, que certamente, não duvidarão em chegar à extrema violência e em exigir dos povos o mais elevado preço. Uma prova disso são os acontecimentos do departamento boliviano de Pando em setembro último, quando o prefeito da oposição ordenou o massacre de uma manifestação pacífica.
Os avanços ocorrem em meio à profunda crise econômica e financeira mundial, provocada pelos EUA, acompanhada simultaneamente pela crise energética, alimentícia, pelos altos e baixos dos preços da energia, das matérias-primas, dos alimentos e pela ampla alteração do meio ambiente como conseqüência das mudanças climáticas e seus desastres naturais.
Mesmo assim, o balanço do ano nesta região apresenta concretamente saldos positivos e não menos esperançosos, evidenciando-se que a confrontação com o império e os esforços para libertar-se da dependência são possíveis e produzem frutos quando se investe conseqüente, firme e inteligentemente nesse sentido.
O prestígio e a autoridade moral das nações da América Latina e do Caribe crescem diante do mundo, e prova disso é a atuação do ex-chanceler nicaragüense Miguel D’Escoto, como presidente da Assembléia Geral da ONU, onde mais uma vez e de maneira contundente, rechaçou o criminoso bloqueio de Washington contra Cuba. Ao mesmo tempo, as medidas agressivas do império, como a reativação da 4º Frota da Marinha de Guerra estadunidense são universalmente repudiadas.
Uma sucinta retrospectiva de alguns dos mais importante acontecimentos ocorridos na região durante o ano que termina, exemplifica os avanços que, paulatinamente, mas com certeza, foram acontecendo e marcando a ampliação e consolidação antes mencionadas. Tal retrospecto, ao qual se podem acrescentar outros elementos, abrangem todas as sub-regiões (América do Sul, Central e o Caribe) com situações pontuais que têm lugar em alguns países em particular e que é necessário mencionar para demonstrar um panorama mais completo:
- Criação da União das Nações do Sul (Unasul) como mecanismo de consulta e integração de todos os países sul-americanos sem intervenção estrangeira.
- Avanços da Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) com o ingresso de Honduras e Dominica e com a aprovação de uma zona monetária comum como passo prévio a uma moeda comum com vista a alcançar a independência em relação ao dólar.
- Conflito Colômbia-Equador e atuação independente do Grupo do Rio, que conseguiu evitar um enfrentamento armado entre os dois países como conseqüência da violação do território equatoriano por parte das tropas do exército colombiano. Momento em que se pôs à prova a necessidade de um mecanismo sem os condicionamentos e a dependência da OEA aos EUA.
- Ingresso de Cuba no Grupo do Rio constatando-se o respeito, a autoridade política e a confiança na Revolução Cubana e a independência desse grupo de nações em assuntos de política externa.
- Eleição do ex-bispo Fernando Lugo como presidente do Paraguai, pondo fim a 70 anos de domínio do Partido Colorado, durante os quais, se inclui a ditadura de Alfredo Stroessner e sua participação na criminosa Operação Condor.
- Eleiçoes regionais na Venezuela, que confirmaram o Partido Socialista Unido (PSUV) como a primeira força política desse país, ao obterem cinco milhões e meio de votos, quando a oposição, apesar do patrocínio do império, perdeu 300 mil. O PSUV ganhou 17 dos 22 estados onde houve eleições e triunfou na imensa maioria das prefeituras.
- Eleições municipais na Nicarágua, onde a Frente Sandinista venceu em 105 das 146 prefeituras em disputa, arrebatando à direita neoliberal importantes espaços no mapa político desse país centro-americano.
- Referendo Revogatório na Bolívia que ratificou o apoio majoritário ao presidente Evo Morales, desbaratando a conspiração dos prefeitos opositores em conluio com a Casa Branca, deixando aberto o caminho para o referendo constitucional que dirá "Sim" ou "Não" à nova Carta Magna.
- Aprovação em referendo da nova Constituição do Equador.
- Violência generalizada no México; recorde de vítimas atribuídas ao narcotráfico e ao crime organizado e e montagem nacional de um gigantesco movimento de massas contra a privatização do petróleo.
- 1ª. Cúpula dos países da América Latina e do Caribe — sem participação estrangeira — sobre integração e desenvolvimento em Salvador da Bahia, Brasil, convocada pelo presidente Lula como uma prova inequívoca da maturidade da região na busca de soluções próprias aos problemas que os atingem.
- 3ª. Cúpula de Cuba-Caricom em Santiago de Cuba como expressão do reforço dos laços de nosso país com seus colegas insulares.
- Visita dos presidentes da China, Rússia e Brasil (este, em duas ocasiões) a Cuba com importantes resultados econômicos e políticos.
- Estreitamento das relações mutuamente vantajosas dos presidentes chinês, russo e iraniano com importantes países latino-americanos.
- Ampliação dos serviços de saúde e educação como parte dos acordos da Alba a vários países da região, mesmo que não façam parte desse novo mecanismo de integração.
No ano 2009 começará com não poucos questionamentos o mandato do novo presidente dos EUA, Barack Obama, e suas implicações para a América Latina e o Caribe.
O novo ano porá à prova se o recém-eleito presidente será capaz de conduzir uma política respeitosa e realista para a região ou se repetirá os velhos rumos de prepotência, intimidação e saque que predominaram nas conflituosas relações do grande vizinho do Norte com as nações da Nossa América, vilipendiadas e desprezadas, reduzidas até há pouco, como "quintal" do império.
Tomara que o novo inquilino da Casa Branca assuma como política própria o princípio martiano "viver com os tempos e não contra eles", já que só reconhecendo que a América Latina e o Caribe vivem novos tempos poderá articular o que é necessário e a que todos aspiram: uma relação de vizinhança baseada no respeito e confiança mútuas.
Será um novo cenário para a região, que deverá ser observado muito de perto.
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* Orixinal en español no xornal cubano ‘Granma’.
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[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Vermelho’, do 3 de xaneiro de 2009]