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8/3/2010

Sociólogo e científico social histórico estadounidense, nado en Nova York en 1930. De filiación marxista, ntre as súas achegas está a teoría do sistema-mundo. Foi profesor de socioloxía na Universidade de Binghamton até a súa xubilación en 1999, así como director do Centro Fernand Braudel para os estudos económicos, sistemas históricos e civilización. Na actualidade, escribe os seus comentarios quincenais no sitio web do Fernand Braudel Center.

Entre os seus numerosos libros pódense salientar: The Modern World-System (vol. 1, 2 e 3), Historical Capitalism (1983), The Politics of the World-Economy. The States, the Movements and the Civilizations (1984), Geopolitics and Geoculture: Essays on the Changing World-System (1991), After Liberalism (1995), Decline of American Power: The U.S. in a Chaotic World (2003) ou European Universalism: The Rhetoric of Power (2006).

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Caos como constante diária

O que estamos a observar na Califórnia, na Grécia, na maioria dos governos mundiais? A arrecadação dos governos é baixa, principalmente pela redução da colecta de impostos, que por sua vez é causada pelo facto de em todo o lado as pessoas consumirem menos por medo de o seu dinheiro acabar. Ao mesmo tempo, precisamente porque o desemprego mundial é consideravelmente maior, os Estados têm de gastar mais.

Sabemos que estamos a viver numa situação caótica quando (1) os média de referência mostram-se constantemente surpreendidos pelos acontecimentos; (2) as previsões de curto-prazo de vários especialistas apontam para direcções totalmente diferentes e são formuladas com muitas reservas; (3) o Establishment ousa dizer coisas ou usar palavras que antes eram tabu; (4) as pessoas comuns estão assustadas e zangadas, mas muito inseguras em relação ao que fazer. Esta é uma boa descrição dos últimos dois anos em todo o mundo, ou pelo menos na sua maior parte.

Vejam as recentes enormes "surpresas" - a eleição de um senador republicano em Massachusetts; o colapso financeiro do Dubai; a quase bancarrota de vários grandes estados no interior dos Estados Unidos e de quatro ou cinco dos estados-membro da União Europeia; fortes flutuações mundiais das moedas.

Estas "surpresas" são comentadas diariamente na imprensa mundial e pelos principais políticos. Não têm qualquer acordo sobre o que está a acontecer, e muito menos sobre o que deveria ser feito para melhorar a situação. Por exemplo, li apenas duas declarações inteligentes sobre os resultados eleitorais nos Estados Unidos.

Uma foi do próprio Barack Obama: "O processo que levou à vitória de [o republicano] Scott Brown [em Massachusetts] foi o mesmo que me deu também a vitória: as pessoas estão zangadas e frustradas." E a segunda foi do colunista afro-americano Charles M. Blow, do New York Times. Intitulou a sua coluna "As multidões mandam" Disse: "Benvindos à multidão: um eleitorado zangado e ferido, exasperado pela recessão, oscilando através do espectro político, ainda ansiando pela mudança, alimentando uma sede de sangue." Primeiro elegeram Obama; agora, rejeitam-no. Porquê? "A multidão é volúvel."

O que estamos a observar na Califórnia, na Grécia, na maioria dos governos mundiais? A arrecadação dos governos é baixa, principalmente pela redução da colecta de impostos, que por sua vez é causada pelo facto de em todo o lado as pessoas consumirem menos por medo de o seu dinheiro acabar. Ao mesmo tempo, precisamente porque o desemprego mundial é consideravelmente maior, os Estados têm de gastar mais.

Assim, os Estados têm menos dinheiro para responder a necessidades maiores. Que podem, então, fazer? Podem aumentar impostos. Mas raramente os contribuintes são a favor de que aumentem os seus impostos. E os Estados temem a fuga das empresas. Bem, nesse caso, podem cortar gastos - presentes ou futuros, como as pensões. Depois, têm de enfrentar o descontentamento popular, ou mesmo a revolta popular.

Entretanto, o "mercado" reage. Mas que mercado é este que reage - por exemplo, alterando as suas preferências em termos de moeda? São as muito grandes empresas e as estruturas financeiras como os fundos de risco (hedge funds), que moldam o sistema financeiro mundial à procura de ganhos de curto-prazo, mas significativos.

O resultado é que os governos ficam diante de escolhas impossíveis, e os indivíduos diante de escolhas ainda mais impossíveis. Não podem prever o que é provável que aconteça. Tornam-se ainda mais frenéticos. Viram-se violentamente para o proteccionismo, para a xenofobia ou para a demagogia. Mas isso, evidentemente, pouco resolve.

Neste ponto entra o maior dos especialistas mundiais, Thomas L. Friedman, que escreveu uma coluna intitulada "Nunca tinha ouvido isso". O que é que ele nunca tinha ouvido? Ouviu não-americanos falando em Davos sobre "instabilidade política" nos Estados Unidos. Diz que, na sua experiência passada, uma frase como esta só fora usada referindo-se a países como Rússia, Irão ou Honduras. Imaginem. Pessoas realmente a considerar os Estados Unidos politicamente imprevisíveis. E Thomas Friedman que nunca ouvira isso.

Houve quem tivesse escrito isto, e explicando-o, durante pelo menos 40 anos, mas Thomas Friedman nunca tinha ouvido. É porque ele vive num casulo autoconstruído, o do Establishment político dos Estados Unidos e dos seus acólitos noutros lados. As coisas devem estar a correr-lhes mesmo mal para reconhecerem esta realidade básica. Os Estados Unidos são politicamente instáveis - e é provável que fiquem mais, não menos, na próxima década.

A Europa é mais estável? Só um pouco. A América Latina é mais estável? Só um pouco. A China é mais estável? Talvez um pouco, mas não há garantias. Quando o gigante balança, muitas coisas podem cair com ele.

O caos diário é assim - uma situação que não é previsível no curto prazo, menos ainda no médio. Por isso, é uma situação na qual as flutuações económicas, políticas e culturais são grandes e rápidas. E isto assusta a maioria das pessoas.

[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 4 de marzo de 2010]

cig.prensa@galizacig.com