Logotipo CIG Confederación Intersindical Galega - Avantar - Opinion 18/1/2010
O falhanço de Copenhaga pertence a Obama
Naomi Klein
Publicado en Esquerda ()
20100118_obama.clima.jpg

O presidente americano estava numa posição privilegiada para liderar o mundo no que respeita às alterações climáticas e desperdiçou todas as oportunidades. Ao contrário das inúmeras notícias, o desastre de Copenhaga não foi culpa de todos. Não aconteceu por que os seres humanos são incapazes de estabelecer acordos ou são inerentemente auto-destrutivos. Também não foi apenas culpa da China nem das infelizes Nações Unidas.

Existe muita culpa para distribuir mas havia um único país que possuía um poder singular para mudar o jogo. E não o usou. Se Barack Obama tivesse ido a Copenhaga com um compromisso transformador e inspirador para tirar a economia dos EUA da dependência dos combustíveis fósseis, todos os outros grandes emissores teriam seguido. A União Europeia, o Japão, a China e a Índia indicaram que estariam dispostos a aumentar as suas metas de acordo, mas apenas se os EUA tomassem a iniciativa. Em vez de liderar, Obama chegou com metas embaraçosamente baixas e os grandes emissores imitaram-no.

(O "acordo" que foi arranjado à última da hora não é nada mais que um pacto sujo entre os maiores emissores mundiais: Eu vou fingir que estás a fazer alguma coisa pelas alterações climáticas se tu fizeres o mesmo por mim. De acordo? De acordo. )

Compreendo todos os argumentos sobre as promessas que ele não pode cumprir, sobre a disfunção do Senado norte-americano, sobre a arte do possível. Mas poupem-me a lição sobre o pouco poder que o pobre Obama tem. A nenhum presidente desde Frankin Delano Roosevelt (FDR) foram dadas tantas oportunidades para transformar os EUA em algo que não ameace a estabilidade da vida neste planeta. Ele recusou usar toda e qualquer uma delas. Vejamos as três maiores:

Oportunidade Desperdiçada número 1: O Pacote de Estímulo

Quando o Obama chegou à presidência, ele tinha mão livre e um cheque em branco para estabelecer um pacote de gastos no sentido de estimular a economia. Podia ter usado esse poder para determinar o que muitos chamaram o New Deal Verde - construir o melhor sistema público de trânsito e os esquemas mais inteligentes do mundo. Pelo contrário, tentou desastrosamente chegar aos Republicanos, baixando o tamanho do estímulo e estragando grande parte do mesmo em cortes fiscais. Claro, gastou algum dinheiro na impermeabilização, no entanto, os transportes públicos foram inexplicavelmente pouco modificados enquanto que as auto-estradas que perpetuam a cultura do carro ganharam bem.

Oportunidade Desperdiçada número 2: Os financiamentos da indústria automóvel

Por falar em cultura do carro, quando Obama tomou posse também se encontrou reponsável de dois dos três maiores fabricantes de carros e de todas as emissões pelas quais são responsáveis. Um líder visionário determinado em lutar contra o caos climático teria obviamente usado esse poder para reestruturar esta indústria ineficiente de forma a que as fábricas construíssem as infra-estruturas verdes de que o mundo tão desesperadamente precisa. Todavia, Obama assumiu o papel de um pouco inspirador em redutor-chefe de expectativas, deixando as questões essenciais desta indústria na mesma.

Oportunidade Desperdiçada número 3: Os financiamentos da Banca

Vale a pena recordar que, quando Obama chegou ao poder, também os bancos estavam de joelhos - houve um enorme esforço para nacionalizá-los. Mais uma vez, se Obama se tivesse atrevido a usar o poder que lhe foi entregue pela história, teria mandado os bancos fornecer empréstimos às fábricas para que estas se modernizassem e para que novas estruturas verdes fossem construídas. No entanto, ele declarou que o governo não devia dizer aos bancos falidos como gerir os seus negócios. As empresas verdes dizem que agora é mais difícil que nunca obter empréstimos.

Imagine-se que este três gigantes da economia - os bancos, a indústria automóvel e o pacote de estímulo - tivessem sido subordinados a um visão verde comum. Se tivesse acontecido, a exigência de uma lei complementar da energia teria sido parte coerente de uma agenda transformativa.

Tivesse ou não sido aprovada, na altura de Copenhaga, os EUA já estariam a caminho de cortar dramaticamente as suas emissões, inspirando, em vez de desapontar, o resto do mundo.

Foram poucos os presidentes dos EUA que desperdiçaram tantas oportunidades de uma geração como Obama. Mais do que a qualquer outro, o falhanço de Copenhaga é responsabilidade sua.

[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 15 de xaneiro de 2010]