Logotipo CIG Confederación Intersindical Galega - Avantar - Opinion 9/3/2009
Dinheiro e poder
Serge Halimi
Publicado en Le Monde Diplomatique ()
20090309_dinheiro

O poder do Estado ressurge como esperança para uma crise generalizada. Mas, se aparatos institucionais são compostos por pessoas - e o mercado por mãos que estiveram tão livres - muito provavelmente interesses serão privilegiados. Não seria insensatez esperar a cura dos mesmos que inventaram a doença?

A corrupção política também se reveste de formas que não são punidas pela lei. No momento em que a questão do “retorno à dependência do Estado” está em evidência em todo lugar ou quase, torna-se inevitável perguntar: afinal, por conta de quais interesses ele atua?

Um ano atrás, em janeiro de 2008, o antigo primeiro-ministro britânico Anthony Blair foi recrutado pelo banco americano JPMorgan Chase como conselheiro em meio período. Um meio período até que corretamente remunerado: 1 milhão de libras esterlinas por ano (R$ 3,52 milhões). Alguém acredita que o JPMorgan teria concedido tão vantajosa sinecura ao senhor Blair se, quando ele residia no nº 10 da Downing Street, este último tivesse tomado medidas contrárias aos interesses dos bancos, com o objetivo, por exemplo, de prevenir um desmoronamento financeiro?

E alguém ainda acredita que foi totalmente por acaso que o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder se tornou, em março de 2006, conselheiro de uma companhia produtora de oleodutos, filial do gigante russo Gazprom, para receber um salário de 250 mil euros por ano, empresa que ele mesmo havia assistido ao nascimento quando exercia as funções de chefe do Estado alemão? Na ocasião, um dos seus colegas social-democratas havia declarado com ironia: “Eu não consigo me conformar com isso; é impossível deixar de considerar um pouco indigno o fato de um homem de Estado se mostrar obcecado por dinheiro a esse ponto”.

Agora chegou a vez de George W. Bush preparar sua próxima carreira. Não é muito difícil imaginar desde já os rumos que ela irá tomar: “Eu pronunciarei alguns discursos, só para abastecer meus combalidos cofres. Não sei qual é o preço que o meu pai costuma cobrar – creio que suas tarifas vão de US$ 50 mil a US$ 75 mil por discurso – e sei que Clinton também ganha muito dinheiro” [1].

A questão é delicada a tal ponto que o antigo presidente democrata está sendo obrigado a submeter a um comitê de ética do Departamento de Estado a lista das pessoas que retribuem seus discursos. Atendendo a essa exigência, espera-se que ninguém suspeite que sua mulher possa conduzir a política externa dos Estados Unidos de maneira a enriquecer secretamente os clientes do marido…

Em julho passado, a revista semanal Le Point, uma publicação que não se caracteriza exatamente pela oposição a Nicolas Sarkozy, tornou públicas diversas declarações do presidente francês que chamaram a atenção. O chefe de Estado teria revelado detalhes de seus projetos futuros nos seguintes termos: “No que me diz respeito, em 2012 eu terei 57 anos e não disputarei um segundo mandato. E quando vejo os bilhões que ganha Clinton, eu também quero encher meus bolsos! Fico governando por cinco anos e, depois, irei para o setor privado faturar uma grana preta como faz o Clinton. A 150 mil euros a conferência!” [2].

Vender conselhos, pronunciar discursos por dinheiro, não são as únicas alternativas. É também possível tornar-se o patrão de uma companhia muito importante. O fato de ter sido ministro das finanças não é a pior das maneiras de alcançar esse objetivo. Nada impede de seguir mamando nas “tetas do Estado” quando este último abastece com dinheiro público os bancos privados em processo de falência. Robert Rubin, influente conselheiro econômico de Barack Obama, sabe disso muito bem. Afinal, ele passou da presidência do banco de investimento Goldman Sachs para o Ministério das Finanças, e, depois, do Ministério das Finanças para a direção do conglomerado financeiro Citigroup.

Quando exerceu o cargo de ministro da Economia, das Finanças e da Indústria, de 2005 a 2007, o francês Thierry Breton empenhou- se ativamente em fazer com que os impostos sobre os salários elevados se tornassem mais “atraentes”. Agora, ele poderá desfrutar diretamente dessas vantagens, uma vez que se tornou o presidente da sociedade de serviços informáticos Atos, após ter passado um ano atuando a serviço do banco Rothschild – do qual foi funcionário ao lado de Schröder… Segundo ele mesmo chegou a confessar, irá receber “um salário anual fixo de 1,2 milhão de euros, além de uma participação variável que poderá equivaler a até 120% do montante fixo em função dos objetivos a serem alcançados, mas pedi para que esta vantagem seja reduzida para um montante máximo de 100%. A isso, deve-se acrescentar a atribuição de 233 mil stock-options, no final de 2009, de 2010 e de 2011, sucessivamente”. E Thierry Breton acrescenta: “Eu pedi para não ser beneficiado com nenhum ‘paraquedas dourado’, caso minhas funções sejam encerradas” [3]. Afinal, todos devem estar dispostos a fazer sacrifícios em função da crise.

Quando o poder constitui ora a etapa necessária para uma carreira lucrativa no mundo dos negócios, ora um refúgio para homens de dinheiro em busca de recuperação, será mesmo sensato esperar que poderosos interesses venham a cumprir a parte que lhes cabe no processo de saneamento de uma crise da qual eles mesmos foram os principais responsáveis?

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[1] Jim Rutenberg, “Talking with author, Bush reveals his personal side”, International Herald Tribune, 3 de setembro de 2007.

[2] “Sarko off ”, Le Point, 3 de julho de 2008. Segundo o jornalista do Le Monde, Nicolas Sarkozy teria anunciado, três anos antes: “Eu posso atuar como advogado; posso ganhar dinheiro. (...) Primeiro, vou ser presidente e depois atuarei como advogado”. (Philippe Ridet, Le Président et moi, Albin Michel, Paris, 2008)

[3] Les Echos, 16 de dezembro de 2008.

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[Artigo tirado do sitio web brasileiro de ‘Le Monde Diplomatique’, núm. de febreiro de 2009]