Logotipo CIG Confederación Intersindical Galega - Avantar - Opinion 13/3/2009
Para que serve a OTAN?
Serge Halimi
Publicado en Le Monde Diplomatique ()
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Nicolas Sarkozy queria que a sua presidência fosse uma ruptura com o «modelo social francês» que a falência do capitalismo financeiro à moda americana veio agora avivar. Terá ele então decidido acabar com uma outra tradição francesa, a da independência nacional? Embora durante a campanha eleitoral nunca tenha aludido a uma tal «ruptura», e que depois tenha feito depender o regresso da França ao comando integrado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de um reforço da defesa europeia, Sarkozy fez saber, no entanto, que a decisão do general De Gaulle tinha passado à história.

Ora, há quarenta e três anos, o fundador da V República retirou a França do comando integrado da OTAN numa altura em que a União Soviética mantinha sob a sua autoridade vários países da Europa. Podemos pois perguntar-nos por que motivo – ou na perspectiva de que guerras – deverá a França fazer marcha-atrás, hoje que o Pacto de Varsóvia deixou de existir e que muitos dos seus antigos membros (Polónia, Hungria, Roménia, etc.) aderiram à União Europeia e à Aliança Atlântica.

Será para dar emprego a oitocentos oficiais franceses em Norfolk, na Virgínia, no quartel-general da OTAN? Para agradar a industriais do armamento, amigos de Sarkozy, prevendo estes que o regresso da França às fileiras atlantistas lhes permitirá vender mais equipamentos militares? Para convencer os norte-americanos de que, deixando Paris de ficar fora da OTAN, poderiam autorizar Sarkozy a tornar-se um dos prescritores do seu círculo de influência? De forma mais verosímil, o Eliseu espera tirar partido da simpatia que o novo presidente dos Estados Unidos inspira, para acabar com a imperdoável excepção francesa. Essa que, na altura da guerra do Iraque, levou Paris a erguer-se contra todos os doutores Strangelove do «choque das civilizações». Coisa que provocou grande despeito em muitos dos actuais seguidores de Sarkozy – entre os quais Bernard Kouchner, seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

A maior parte dos Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU) não pertence à OTAN nem à União Europeia. Seis dos países membros da União também não fazem parte da OTAN (Áustria, Chipre, Finlândia, Irlanda, Malta e Suécia). Apesar disso, tende a criar-se uma certa confusão entre estas três estruturas, visando alargar o perímetro geográfico da organização militar e atribuir-lhe missões de «estabilização» que estão muito para lá dos seus talentos e da sua jurisdição.

Uma pequena maioria de deputados europeus (293 votos contra 283), invocando a transformação do planeta numa «terra sem fronteiras», reclamou assim recentemente, no dia 19 de Fevereiro, que seja criada, em «âmbitos como o terrorismo internacional, (…) a criminalidade organizada, as ciber-ameacas, a degradação do ambiente, as catástrofes naturais e outras» [1], uma «parceria ainda mais estreita» entre a União Europeia e a OTAN. Recorrendo a uma elegante metáfora, a exposição dos motivos determina que «sem dimensão militar, a União não passa de cão que ladra mas não morde».

Decididamente desejosos de não nos pouparem a nenhum dos cordelinhos, os deputados apoiam a sua declaração num lembrete das «horas sombrias da nossa história», de Hitler, de Munique, sem sequer se esquecerem de acrescentar umas linhas sobre «Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto». «Não gostaríamos nós que alguém viesse socorrer-nos quando choramos?», defendem eles. Secar as lágrimas dos civis nunca foi o talento principal dos oficiais norte‑americanos. Nem durante a guerra do Kosovo nem durante a do Iraque, levadas a cabo em violação da Carta das Nações Unidas. Mas segundo os deputados europeus em questão, muitos Estados membros da ONU enganam-se quando se referem à «doutrina do não-alinhamento, herança da Guerra Fria, [o que] fragiliza a aliança das democracias»…

Já deu pois para perceber que a «futura defesa colectiva da Europa» a que aderiu o chefe de Estado francês se irá organizar unicamente no quadro da Aliança Atlântica. Misturando missões civis e militares, essa defesa não hesitará em mobilizar-se muito para lá da antiga «cortina de ferro», até aos confins do Paquistão. No próprio partido de Sarkozy, dois antigos primeiros-ministros, Alain Juppé e Dominique de Villepin, já começaram a alarmar-se com semelhante orientação. O que bem mostra o perigo da viragem que esta orientação apresenta.

[Artigo tirado da edición portuguesa de ‘Le Monde Diplomatique’, núm. 29, marzo de 2009]