Logotipo CIG Confederación Intersindical Galega - Avantar - Opinion 24/4/2009
Sobre a perigosa estratégia do presidente Obama
Miguel Urbano Rodrigues
Publicado en Correio da Cidadania ()
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O presidente estadounidense Barack Obama sobrevoa Iraq acompañado polo xeneral Petraeus.

É inquietante que o Obama que anuncia romanticamente para um futuro remoto um planeta desnuclearizado, em paz perpétua, não se aperceba de que no exercício da presidência está a negar, de concessão em concessão ao establishment, os compromissos assumidos com o seu povo e a dar continuidade a uma estratégia imperialista de dominação universal.

Cumpridos os primeiros três meses na Casa Branca, Barack Obama continua em estado de graça. Sobre o jovem presidente negro chovem elogios.

Uma máquina de propaganda bem concebida conseguiu que a promoção do sucessor de George Bush adquirisse características inéditas. Não somente assumiu proporções mundiais, como a maioria dos epígonos é sincera na apologia do novo herói americano, não se apercebendo de que o coro dos elogios é estimulado por uma engrenagem made in USA.

No auge de uma gigantesca crise do capitalismo, inseparável de uma crise de civilização, Obama é apresentado como o sucessor dos pais da pátria do final do século XVIII, o líder providencial sobre cujos ombros caiu a missão de salvar a humanidade dos perigos que a ameaçam, tarefa que somente o seu país, os EUA, poderá liderar e concluir com êxito.

O quase endeusamento do salvador é acompanhado por uma ofensiva midiática paralela sobre as virtudes do exemplar chefe de família. A esposa e as filhas tornaram-se tema de reportagens apologéticas na TV, na Internet e na grande imprensa. Até o cão das meninas inspirou artigos que correm pelo mundo.

Essa poderosa orquestração promocional empurra o cidadão comum, de Washington a Tóquio, de Brasília ao Cairo, para a conclusão de que, afinal, o destino da humanidade depende hoje muito mais da grandeza de um homem excepcional que de obra dos povos.

Desmontar essa campanha e chamar à realidade centenas de milhões de pessoas que por ela são confundidas é, creio, um dever dos intelectuais progressistas.

Do mito à realidade

Barack Obama é um homem inteligente, mais honesto e bem intencionado do que a quase totalidade dos presidentes que o precederam.

Acredito que há meia dúzia de anos não lhe passaria pela cabeça a ambição de chegar à Casa Branca. Foram as circunstâncias e o seu grande talento oratório na comunicação com as massas que contribuíram decisivamente para que esse mestiço, filho de um imigrante do Quênia, fosse eleito presidente dos EUA.

Um fator importante pesou na vitória tida por impossível quando nas primárias disputou a candidatura pelo Partido Democrata: a sua experiência como senador proporcionara-lhe um conhecimento aprofundado da sociedade estadunidense e do sentimento de aversão do americano médio pelas engrenagens apodrecidas do poder em Washington.

Esses trunfos, muito importantes, não bastam, porém, para transformar quase de um dia para outro o ex–senador por Illinois num estadista superdotado.

O apoio ostensivo do grande capital foi determinante para a eleição de Obama no contexto de uma crise do sistema mais complexa e profunda do que a iniciada com o crash de Wall Street em 1929. O mundo da finança preferiu o político que prometia mudar tudo ao republicano McCain, comprometido com a herança de Bush. Os sacerdotes do dinheiro não são ingênuos.

Transcorridos três meses, o presidente que popularizou os slogans "Sim, nós podemos" e "Sim, é possível" mudou muito pouca coisa. Obama cultiva um populismo sem precedentes na Casa Branca.

O esboço de um grande futuro que ele ajudará a construir é uma constante no discurso retórico em que a ambição do projeto ganha credibilidade pelo tom humanizado do estadista pessoalmente desambicioso, inconformado com o sofrimento dos seus compatriotas pobres e decidido a materializar o velho sonho de uma paz perpétua na Terra, erradicando dela os flagelos do terrorismo e da guerra.

Mas, em vésperas de festejar os 100 dias, os atos do presidente não correspondem às promessas e à esperança que suscitou.

No plano interno, na área estratégica da economia, Obama formou um gabinete com alguns dos mais destacados cérebros que conceberam a desregulação do sistema financeiro dos anos 90, estopim da borbulha especulativa cujo estouro gerou o pânico no mundo do capital. Três dos colaboradores a quem tinha confiado postos-chave da Administração tiveram de renunciar por estarem envolvidos em escândalos. Outros, como Paul Volcker, Lawrence Summers e Timothy Geithner, não escondem uma fidelidade granítica ao neoliberalismo e às grandes transnacionais e bancos que o Estado se esforça por salvar da falência.

Afirmando que comparecia na Cimeira do G-20, sobretudo para ouvir e recuperar a confiança de velhos aliados, o presidente Obama fez aprovar em Londres, no fundamental, a estratégia que a maioria dos europeus, sobretudo Sarkozy e a chanceler Merkel, recusavam.

Os US$ 750 bilhões atribuídos ao FMI e os US$ 250 bilhões de apoio a direitos especiais de saque, bem como os US$ 100 bilhões destinados ao Banco Mundial e a outros bancos, confirmaram que a política de socorro aos bancos e banqueiros corruptos, responsáveis pela crise, vai prosseguir, nela cabendo um papel importantíssimo à instituição financeira que comandou a imposição do neoliberalismo em escala mundial.

No tocante à política internacional, Obama, longe de trabalhar pela paz, não se desviou até agora da linha belicista da administração anterior, traçada pelos neoconservadores bushianos.

Hillary Clinton, à frente do Departamento de Estado, está a desempenhar o papel que dela se poderia esperar. O seu sorriso permanente e o discurso recheado de promessas ocultam mal as suas posições de conservadora empenhada em aplicar com firmeza o conselho de Lampedusa no ‘Il Gatopardo’: mudar na aparência alguma coisa para que tudo fique, afinal, na mesma.

Não parece dar-se conta de que num mundo em crise nada hoje é estático e tudo está em movimento.

A política em relação à Palestina é, com retoques cosméticos, a mesma. As declarações de Obama quando, antes da eleição, visitou e elogiou Israel não justificam a esperança de uma revisão profunda da aliança com o sionismo, não obstante o novo governo israelense, de extrema-direita, se negar a admitir a criação de um Estado Palestino. É inquietante que o seu chefe de gabinete na Casa Branca, um dos chamados homens do presidente mais influentes, seja Rahme Emanuel, um sionista fanático.

Quanto ao Iraque, Obama retoma a tese de Bush sobre o êxito da pacificação do país, situação que permitiria o regresso aos EUA de dezenas de milhares de soldados, de acordo com o calendário estabelecido. Sabe que mente e todas as semanas dezenas de pessoas morrem ali em ações de violência atribuídas sempre a organizações terroristas e à Al Qaeda, como se a Resistência não existisse.

No norte, em Mossul, a tendência é, aliás, para um agravamento da contestação. Washington recusa-se a reconhecer que o Iraque é um país ocupado e vandalizado, com um governo fantoche.

Relativamente ao Irã, o discurso agressivo de Bush foi substituído por outro, de abertura ao diálogo. Mas o presidente norte-americano defende a aplicação de novas sanções se o governo de Ahmadinejad não se submeter às suas exigências, isto é, a renunciar a um projeto que Teerã garante estar orientado para o aproveitamento da energia nuclear com fins exclusivamente pacíficos.

Afeganistão: estratégia perigosa numa guerra perdida

Na sua campanha para a Casa Branca, Obama já havia feito afirmações irresponsáveis sobre a guerra no Afeganistão. Eleito, retomou o tema com insistência, afirmando que vencer essa guerra seria um objetivo prioritário na sua política internacional.

Não disponho de informações sobre qual dos conselheiros do presidente é responsável pela sua obsessão afegã. Mas a adesão ao projeto de transformar em pólo estratégico na luta contra o terrorismo a guerra de agressão ao povo afegão, iniciada por Bush como represália absurda pelos atentados do 11 de setembro, é reveladora das lacunas culturais de Obama.

Há poucos dias, o presidente advertiu os europeus - ao pedir-lhes um maior envolvimento militar no Afeganistão, nomeadamente através do reforço das tropas de combate integradas na força da OTAN – que a luta contra o terrorismo era inseparável de um desfecho vitorioso naquela guerra distante num país em que identificava, pela presença ativa da Al Qaeda, a maior ameaça ao Ocidente civilizado, particularmente à Europa. A resposta ao apelo não parece tê-lo satisfeito, por insuficiente.

Na sua opinião, Bin Laden, oculto algures nas áreas tribais do Paquistão, dirige do seu refúgio os talebans que controlam hoje extensas regiões no país.

Acontece que os EUA já não se limitam a combater os chamados "rebeldes" no território afegão. Os bombardeios de aldeias paquistanesas por aviões da USAF não tripulados tornaram-se rotineiros em operações responsáveis pela morte de muitos civis ali residentes.

O general Petraeus, comandante-chefe para toda a região do Médio Oriente e Ásia Central, chegou, entretanto, algo tardiamente, à conclusão de que a guerra não pode ser vencida por meios exclusivamente militares.

O Pentágono e o presidente foram informados de que a solução do problema passa pela abertura de negociações com um setor do inimigo terrorista.

O general identifica três grupos diferenciados entre os talebans. Um de fanáticos islamistas, minúsculo, talvez uns 10%, irredutível na sua decisão de combater os invasores; um segundo, majoritário, de gente que apóia a insurreição por ódio aos estrangeiros, mas neutralizável; um terceiro, a terça parte, recuperável. Petraeus sugere a abertura de negociações com essa facção, admitindo que, tal como ocorreu no Iraque com milhares de sunitas, esses talebans possam tornar-se futuros aliados. Essa tese conta com o apoio do presidente Karzai, ex-funcionário subalterno de uma companhia petrolífera norte-americana. O objetivo de estabilizar o país - da sua "democratização" já não se fala - exige o estímulo ao desenvolvimento econômico, a reconstrução de cidades destruídas, o combate vitorioso à produção e exportação de ópio.

Tais metas são inatingíveis. Em primeiro lugar porque o dinheiro da ajuda internacional tem sido embolsado pela gente de Karzai. É esclarecedor que a produção da papoula do ópio tenha aumentado extraordinariamente a partir da ocupação americana.

Petraeus terá sido influenciado por um ex-oficial do exército australiano, hoje seu assessor influente. Esse obscuro militar, definido já por alguns meios estadunidenses como um estratega genial, defende uma ação psicológica junto das populações para reconquistar a sua confiança. Quanto aos talebans vacilantes, sugere a sua compra para fazê-los mudar de campo, transformando-os de inimigos em aliados.

Li algures que Petraeus tem paixão pela História, mas não demonstra ter percebido que o ambicioso projeto de "pacificação" do seu colaborador australiano é afinal uma repetição daqueles que os generais Westmoreland, Challe e Spinola idearam para o Vietnã, a Argélia e a Guiné Bissau. Acontece que todos fracassaram.

Mas os fatos confirmam que o presidente identifica na escalada no Afeganistão um pilar da sua estratégia de combate mundial ao terrorismo. Segundo as agências noticiosas, aproximadamente 21000 soldados vão ser transferidos do Iraque para o Afeganistão e o presidente vai pedir ao Congresso mais US$ 98 bilhões de dólares para financiar e "vencer" a guerra

Obama não terá disposto de tempo para estudar a história do país que foi, aliás, berço de grandes civilizações cuja memória é transmitida por ruínas belíssimas que fazem do país um dos maiores museus arqueológicos naturais da humanidade.

O presidente certamente desconhece que ao longo de 23 séculos, desde a chegada de Alexandre da Macedônia, todos os invasores do atual território do Afeganistão foram enfrentados com extraordinária coragem pelos habitantes, nomeadamente os antepassados dos pashtuns, a minoria mais numerosa num país que continua a ser um mosaico de nacionalidades.

Os mongóis de Gengis Khan renunciaram a conquistar a Índia depois de sofrerem enormes perdas na travessia da cordilheira do Hindu Kush.

A Inglaterra imperial invadiu três vezes o país. Na primeira, em 1848, um exército de 14000 homens foi totalmente destruído na retirada de Cabul para a fronteira. O único oficial sobrevivente, o Dr. Brydon, médico da expedição, chegou a Jalalabad montado numa mula para anunciar a catástrofe. Na segunda guerra, em 1878, uma brigada britânica de 4000 homens foi aniquilada pelo príncipe Ayub Khan na batalha de Maiwand, às portas de Kandahar. A terceira, em 1919, iniciada com um ataque afegão a guarnições da fronteira, findou quando Londres reconheceu a plena independência do país, submetido a um regime de protetorado.

Transcorrido mais de meio século, milhares de soldados soviéticos morreram em combate nas montanhas afegãs, na década de 80, durante o conflito que opôs a Revolução afegã às organizações de mujahedins, armadas e financiadas pelos EUA.

Uma constante na torrencial desinformação sobre a guerra no Afeganistão é a insistência em atribuir à Al Qaeda o comando da insurreição na qual os talebans do mullah Omar seriam a única organização guerrilheira que enfrenta as tropas de ocupação (da OTAN e dos EUA).

Ora, no Afeganistão, o árabe, língua de Bin Laden e da maioria dos dirigentes da Al Qaeda, é praticamente desconhecido. Os dois idiomas oficiais são o dari (variedade do persa) e o pashto, ambos indo-europeus.

É falso também atribuir aos talebans todas as ações de combate aos ocupantes. Muitas tribos da fronteira, sobretudo os waziris, os momand, os shinwar, e outras, lutam por ódio ao invasor e não sob comando taleban. Nos confrontos com as tropas estrangeiras participam inclusive – segundo notícias divulgadas na Suécia – ex-dirigentes do Partido Democrático do Povo, na clandestinidade desde o fim da Revolução Afegã.

A derrota será o desfecho

O republicano Robert Gates, mantido por Obama à frente do Pentágono, aprova obviamente com entusiasmo a escalada prevista para o Afeganistão. Hillary Clinton também.

Não surpreende que em Portugal o ministro da Defesa, com o aval de Sócrates, tenha anunciado o reforço da participação militar portuguesa nas forças da OTAN, afirmando com orgulho que ela serve aos interesses do Estado.

À ignorância soma-se a irresponsabilidade socratiana. Uma derrota humilhante espera os EUA no Afeganistão. O desfecho dessa guerra antecipadamente perdida será talvez, pelas suas consequências, mais grave do que a retirada do Vietnã.

Semana a semana mais envolvido nas malhas da engrenagem que nos EUA controla o poder sob o manto da finança, o presidente avança em múltiplas frentes para fracassos que tornarão cada vez mais distante o seu grande objetivo: superar a crise em que o capitalismo está atolado, meta imprescindível à manutenção da hegemonia mundial exercida pelo país.

Não ponho em causa o homem. Mas é inquietante que o Obama que anuncia romanticamente para um futuro remoto um planeta desnuclearizado, em paz perpétua, não se aperceba de que no exercício da presidência está a negar, de concessão em concessão ao establishment, os compromissos assumidos com o seu povo e a dar continuidade a uma estratégia imperialista de dominação universal.

A decisão, tomada na semana passada, de arquivar os processos instaurados aos torcionários das Forças Armadas que no Iraque cometeram crimes hediondos, expressa uma nova e alarmante capitulação. Argumenta que esses militares agiram de "boa fé", cumprindo ordens superiores, na convicção de que serviam a Pátria.

Cabe recordar que o Tribunal de Nuremberg condenou à pena máxima oficiais generais nazis que em sua defesa invocaram precisamente esse argumento.

A apologia irracional ao novo presidente dos EUA não pode apagar a realidade: a estratégia que desenvolve, longe de remover a ameaça à humanidade que o imperialismo estadunidense configura, dá-lhe continuidade.

[Artigo tirado do sitio web ‘Correio da Cidadania’, do 24 de abril de 2009]