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Santiago, 13 de marzo de 2008

Fidel Castro, do primeiro ao quarto poder
 

Ignacio Ramonet-

Agência Carta Maior


Se bem ninguém deve esperar uma mudança política radical e imediata em Havana, é preciso saber que as eleições de novembro próximo nos Estados Unidos poderiam modificar a atmosfera das relações cubano-americanas. Principalmente se o novo presidente de fato decidir pôr um fim ao injusto embargo comercial unilateral imposto a Cuba há mais de quarenta anos.



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Em sua maioria, os cubanos aceitam ver seu país dirigido por um time diferente, mas da mesma maneira e pela mesma via socialista. Afinal de contas, Raúl Castro tem as rédeas do governo há mais de um ano e meio, e a vida seguiu seu curso sem sobressaltos. Com pragmatismo, colocou no centro do acionar de seu governo as questões que preocupam o povo: a alimentação, o transporte, a moradia, o custo de vida.
 
Por meio de uma mensagem publicada no dia 19 de fevereiro no jornal de Havana, Granma, Fidel Castro anunciou que põe ponto final em sua longa e extraordinária carreira política, renunciando a ser candidato à sua própria sucessão à Presidência de Cuba.

Vai permanecer –de momento, pelo menos– como primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba (PCC), o que está longe de ser uma função menor em um sistema político de partido único. A princípio, deverá anunciar sua demissão deste cargo em um congresso do PCC, mas não há congresso desde 1997. Até este momento, o cargo de Primeiro Secretário nunca esteve dissociado do de chefe do Executivo em nenhum país comunista. Portanto, é pouco provável que Fidel Castro conserve seu cargo no Partido, uma vez que já renunciou também a ser Presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro) e ao grau de Comandante-em-Chefe.

De qualquer modo, sua imensa influência sobre a opinião pública cubana vai perdurar. Permanece na luta mesmo que mude sua frente de batalha. Disse em sua mensagem que agora vai estar consagrado ao "quarto poder": vai continuar escrevendo no jornal de maior circulação da Ilha, o Granma , "órgão central do Partido". Em seu atual quartel-general clandestino, persiste como o combatente que sempre foi, mesmo que suas armas sejam agora exclusivamente as palavras e sua batalha, mais do que nunca, a das idéias. A frente em que luta é, como diria Gramsci, a da hegemonia cultural pela qual sempre batalhou.

Os jornalistas que, nestes últimos dias, alegraram-se estrondosamente pela sua "retirada definitiva", simulam esquecer a influência que a mídia exerce sobre a opinião pública. No mundo de hoje, o quarto poder tem, às vezes, mais poder que o primeiro. E Fidel Castro frisou que os artigos que não deixou de escrever durante sua longa convalescência continuarão aparecendo. Só muda o título: em vez de "reflexões do Comandante-em-Chefe", a partir de agora será simplesmente "reflexões do camarada Fidel" (por outro lado, solicitou que seus artigos não apareçam mais na capa do Granma, e sim, mais discretamente, na página 2). Podemos apostar que os cubanos, igual que os observadores internacionais, vão continuar lendo Fidel com a maior atenção, porque ninguém substitui Fidel Castro como guia ideológico da Revolução.

Na história de seu país, seu percurso é único, não somente pelas suas qualidades de líder, mas também porque as circunstâncias históricas que o modelaram jamais voltarão a ser as mesmas. Fidel Castro passou por tudo: a guerrilha na Sierra Maestra, a Revolução de 1959, as agressões armadas dos Estados Unidos, a crise dos mísseis de outubro de 1962, o apoio às guerrilhas (entre elas a do Che Guevara na Bolívia), o fim da União Soviética e décadas de enfrentamentos com os Estados Unidos.

O fato de que abandone o Executivo ainda em vida deveria permitir, em Cuba, uma evolução pacífica. Em sua maioria, os cubanos aceitam ver seu país dirigido por um time diferente, mas da mesma maneira e pela mesma via socialista. Afinal de contas, Raúl Castro tem as rédeas do governo há mais de um ano e meio, e a vida seguiu seu curso sem sobressaltos. Com pragmatismo, colocou no centro do acionar de seu governo as questões que preocupam o povo: a alimentação, o transporte, a moradia, o custo de vida.

Os cidadãos tiveram tempo para habituar-se à idéia de que Fidel Castro não estaria mais pilotando o executivo. Em seus artigos mais recentes Fidel teve o cuidado de passar, de modo pedagógico, informações muito claras antecipando a decisão que acaba de tomar. Assim, em dezembro de 2007 advertiu: "Meu dever elementar não é ficar aferrado a cargos, nem, muito menos, obstruir o caminho de pessoas mais jovens, senão contribuir com experiências e idéias cujo modesto valor vem da época excepcional que me correspondeu viver".

Mais tarde, após ter sido reeleito deputado do Parlamento constituído no domingo 24 de fevereiro, tinha agradecido seus eleitores e tinha se desculpado com eles por não ter podido fazer campanha em terreno, por causa, explicava, da sua condição física que não lhe permite mais do que escrever. Finalmente, em sua mensagem de 19 de fevereiro, acrescentou: "Estaria traindo, por conseguinte, minha consciência se ocupasse uma função que exige mobilidade e entrega total, que não estou em condições físicas de oferecer".

Personalidade com princípios éticos e morais rigorosos, e cujo modo de vida é de grande austeridade e frugalidade, é também, e com freqüência isso é ignorado, um apaixonado pelas questões ecológicas e do meio ambiente. Não é nem o monstro que descrevem certos meios de comunicação ocidentais, nem o Super-homem que às vezes apresentam alguns meios de comunicação cubanos. Com uma incrível capacidade de trabalho é, acima de tudo, um estrategista excepcional, um dirigente que viveu, diante da potência norte-americana hostil, uma vida inteira de resistência. Sem ter cedido, nem ter sido vencido. Essa é sua grande vitória.

Fidel Castro é uma curiosa mistura de idealismo e pragmatismo. Sonha com uma sociedade perfeita mesmo sabendo que as condições materiais são extremamente difíceis de transformar. Deixa sua função presidencial convencido da estabilidade do sistema político cubano. Sua preocupação principal, hoje, não é tanto o socialismo em seu próprio país como a melhora da vida em um mundo desigual em que milhões de crianças continuam analfabetas, com fome e com doenças que poderiam ser facilmente curadas.

O ex-presidente está convencido de que Cuba deve manter boas relações com todas as nações, qualquer que seja a natureza de seus regimes ou suas orientações políticas. Passa o cargo para uma equipe experiente, na qual tem toda confiança, e este relevo não deveria significar reformas espetaculares. Apesar de Washington, a maioria dos cubanos, inclusive aqueles que criticam alguns aspectos do sistema (limitação de liberdades e de direitos políticos), não contemplam nem desejam uma mudança de rumo radical. Não querem perder algumas vantagens que o socialismo lhes dá: educação gratuita; cobertura médica universal; emprego pleno; moradia gratuita; água, eletricidade e telefone quase gratuitos; e uma existência tranqüila, com segurança, com pouca delinqüência em um país em paz.

Não há dúvida, porque toda mudança de homem implica mudança de método, de que o socialismo cubano vai evoluir. Vai fazer isso ao modo da China ou do Vietnã? Provavelmente não. Cuba vai seguir sua própria via. As novas autoridades certamente irão introduzir mudanças no âmbito econômico, mas é pouco provável que presenciemos uma "Perestroika cubana", ou uma "abertura política", ou eleições multipartidárias. As autoridades estão convencidas de que este tipo de "transição" poderia reabrir o caminho para uma intromissão norte-americana e para uma forma mais ou menos dissimulada de anexação. Consideram que o socialismo é a boa escolha, apesar de que pode —e deve— ser aperfeiçoado. A curto e médio prazo, sua preocupação principal será, verdadeiramente, manter a unidade.

No momento em que Fidel Castro se transforma em jornalista-editorialista com plena dedicação, a tarefa principal que seus herdeiros devem resolver é sobretudo superar o eterno desafio das relações com os Estados Unidos. É um assunto determinante. Em várias ocasiões, Raúl Castro anunciou publicamente que estava disposto a sentar em uma mesa de negociações para discutir com Washington o conjunto das contendas entre os dois países.

E é provável que seja dos Estados Unidos que venha o sinal político mais importante para a evolução em Cuba. Não anunciou claramente o candidato que atualmente está à frente na corrida pela investidura democrata, Barack Obama, –que, em 2003, em sua condição de candidato ao Senado, advogou pela suspensão do bloqueio econômico e pediu que fossem diminuídas as restrições para viajar e enviar fundos para Cuba– sua intenção de discutir com todos os países considerados como "inimigos" ou "adversários" dos Estados Unidos? Entre outros, com Cuba. Ele mesmo já reclamou, em 22 de fevereiro, uma necessária transição nos Estados Unidos, pelo menos sobre esta questão, declarando que se há sinais de mudança na Ilha, "os Estados Unidos devem estar preparados para avançar rumo à normalização das relações e atenuar o embargo". Isto iria significar uma revolução copernicana na política exterior dos Estados Unidos desde 1961.

Se bem ninguém deve esperar uma mudança política radical e imediata em Havana, é preciso saber que as eleições de novembro próximo nos Estados Unidos poderiam modificar a atmosfera das relações cubano-americanas. Principalmente se o novo presidente de fato decidir pôr um fim ao injusto embargo comercial unilateral imposto a Cuba há mais de quarenta anos. Isso, por outro lado, estaria de acordo com a atual sensibilidade dos cubanos instalados nos Estados Unidos, uma vez que, segundo uma pesquisa da Universidade Internacional da Flórida, 65% dos cubano-norte-americanos apóiam um diálogo com o regime cubano.

Segundo Fidel Castro, George W. Bush terá sido, para Cuba, mas também para o povo norte-americano e para o mundo, o mais nocivo dos dez presidentes norte-americanos com os quais ele já teve que lidar. A saída de Bush dentro um ano deveria levar Washington —escaldado pelas desastrosas lições do Iraque e do Oriente Próximo— a uma revisão da política exterior norte-americana e, sem dúvida, a reorientar-se para a América Latina.

Os Estados Unidos irão descobrir uma situação drasticamente diferente da que eles mesmos modelaram nos anos 1960-1990. Cuba não está mais sozinha. No campo da política exterior, os cubanos reforçaram muito seus laços com o conjunto de Estados latino-americanos. Pela primeira vez, Havana tem verdadeiros amigos no poder, principalmente na Venezuela, mas também no Brasil, na Argentina, no Uruguai, na Nicarágua, no Panamá, no Haiti, no Equador e na Bolívia. Alguns destes governantes não são especialmente pró-americanos. Será, portanto, interesse de Washington redefinir suas relações com cada um deles. Relações que não podem ser neocoloniais ou baseadas na exploração, mas baseadas no respeito mútuo. Cuba intensificou especialmente seus intercâmbios com os países da organização política e econômica ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas) e assinou acordos de parceria econômica com os Estados do Mercosul.

É importante lembrar que, em boa medida, a evolução interna em Havana vai depender da atitude que for adotada com relação à Ilha pelo próximo presidente dos Estados Unidos. Enquanto em Cuba a retirada, finalmente esperada, de Fidel Castro não modifica em nada o rumo da revolução, uma eventual eleição nos Estados Unidos de Barack Obama poderia, talvez, provocar, na evolução de Cuba, um pequeno sismo.


[Artigo tirado do sitio web de 'Agência Carta Maior',
7 de marzo de 2008]

 
 
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